Personagens de composição são o forte de Marcelo Serrado. No ar como o desonesto Carlos Eduardo, de "Velho Chico", o ator mergulha para montar o perfil de cada tipo que interpreta. Para encarar o aprendiz de vilão, Serrado viajou até Brasília, pensou no estilo de bigode, tamanho do cabelo e nos gestos do político. "É um processo que eu gosto muito. A cada escolha, vou me conectando ao personagem. A base é o texto e a direção, mas acho que o ator pode dar sua contribuição", analisa. Não que um trabalho mais naturalista – e menos elaborado – não seja bem visto pelo ator, mas a construção artesanal e a complexidade cênica do papel também aproximam Serrado do público. Foi assim com o exagerado Crô, de "Fina Estampa" e o mulherengo Tonico do "remake" de "Gabriela". "O único problema é que eu saio do estúdio, mas o personagem continua. Para me desfazer do Crô foi bem complicado", garante.
Os trabalhos recentes de Serrado na Globo confirmam o bom momento de sua carreira. Natural do Rio de Janeiro, o ator estreou na tevê em "Corpo Santo", exibida pela extinta Manchete em 1987. Na Globo ao longo dos anos 1990, apesar de alguns êxitos, como "Por Amor", foi frequentemente escalado para papéis menores. Por conta disso, cedeu aos convites da Record e, em 2006, assinou com a emissora com "status" de protagonista. Lá, se destacou com personagens fortes em produções como "Vidas Opostas" e "Poder Paralelo", além de aparecer muito bem na série "Mandrake", da HBO. Hoje, aos 49 anos, Serrado entende que essa atitude foi importante para dar uma guinada em sua trajetória. "Fiz trabalhos fascinantes na Record e que redefiniram meus personagens quando voltei para a Globo", admite.

Carlos Eduardo é um político a serviço do coronelismo que insiste em influenciar a região Nordeste. Como foi pesquisar sobre algo tão próximo da realidade?
Foi interessante e estarrecedor. Quando soube do personagem, a primeira coisa que pensei foi que o mergulho nele tinha de ser total. Ou seja, não dava para construir o Carlos Eduardo no conforto do meu lar. Eu tinha de ir ao habitat dele e foi assim que fui parar em Brasília. Fui ao Senado, passei um tempo na Câmara, conversei com muita gente. Viver um político corrupto na televisão em um momento como esse do país é bem complexo.

Quais as lições que você destacaria a partir dessa convivência com tantos políticos?
Olha, a principal é que pouquíssimos que estão ali querem realmente o que é melhor para o povo. Outras coisas me marcaram muito, como o fato de todos eles olharem fundo nos olhos quando vão cumprimentar alguém e os abraços são fortes, como se quisessem passar afeto e intimidade real, mesmo que sejam protocolares. Fui muito abraçado e tirei muitas fotos. Eles me questionavam a razão do Carlos Eduardo ser corrupto e eu respondia que a situação da classe política como um todo estava bem complicada. Precisava dessa experiência e o tempo em Brasília foi esclarecedor.

Em que sentido?
A única coisa que realmente interessa é o poder. Antes da viagem, em conversas com o Luiz Fernando (Carvalho, diretor), a gente brincou comparando o Carlos Eduardo ao tirânico Ricardo III, de Shakespeare. E é isso, em Brasília, o poder está em questão a todo momento e nas mais diversas formas. No geral, meu personagem é um fraco. E desde o início ele vai fazer alianças para chegar ao topo. O casamento com a Maria Teresa é um reflexo disso. Existem muitas histórias como a dele em Brasília.

Recentemente, você apoiou as manifestações que pediam o impeachment da Presidenta eleita Dilma Rousseff e foi criticado quando o governo interino ensaiou extinguir o Ministério da Cultura. Posicionar-se politicamente é algo natural para você ou sua preparação para a novela o aproximou do tema?
Sempre tive minhas opiniões. Falar de política no Brasil se tornou muito mais frequente. E isso é ótimo. O lado complicado disso é que muito gente que critica o governo não é bem interpretada. O que todo mundo quer é um país melhor, com identidade cultural, saúde e educação. Mas o que está acontecendo é que algumas pessoas começaram a transformar tudo em guerra de torcidas. A arrogância é nítida em ambos os lados dessa moeda. Ainda bem que, pelo menos em "Velho Chico", todos convivemos muito bem e aceitamos as nossas diferenças.

Seus trabalhos recentes são recheados de humor. Existe espaço para o riso no Carlos Eduardo?
Eu acho que não. E até agora o texto e a direção não me levaram a isso. Qualquer sinal de comicidade poderia colocar as ações dele em xeque e criar alguma empatia com o que ele faz. Os desvios e as ações práticas em benefício da família dele e não do povo não podem ser tratados como piada. São estradas que nunca ficarão prontas, é a licitação da merenda escolar que será superfaturada e outros crimes graves.

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