Há dois anos, crianças e adolescentes em situação de risco e vulnerabilidade social atendidos pela Associação de Proteção à Maternidade e Infância de Cambé (APMI) nem imaginavam ter a oportunidade de praticar um esporte para muitos desconhecido e inacessível - o golfe. Atualmente, 45 alunos com idades entre oito e 17 anos, atendidos pela entidade, frequentam semanalmente o campo do Londrina Golf Club, no distrito da Bratislava, e, muito além de aprender o desafio de embocar a bola no menor número de tacadas possível, em buracos estrategicamente colocados em distância variadas, vislumbram no golfe a possibilidade de um futuro melhor.
Segundo a idealizadora e coordenadora do projeto ''Golfe na Escola'', Josiane Cristina Botti, a inspiração veio de uma experiência bem-sucedida desenvolvida em Portugal com meninos que cumpriam pena em uma casa de detenção. ''Em 2005 fiz uma pós-graduação em golfe na Faculdade de Motricidade Humana e conheci este projeto. Depois que começaram a praticar o esporte os adolescentes desenvolveram a percepção corporal, concentração e estavam menos agitados'', conta. Ao voltar a Cambé, a professora de Educação Física apresentou o projeto (à época inédito no Brasil), viabilizado por meio de uma parceria entre a Secretaria de Esportes de Cambé, APMI e o Londrina Golf Club.
De acordo com Josiane, os alunos participantes das aulas de golfe foram escolhidos por apresentarem habilidades esportivas e já se destacarem em outras oficinas ofertadas pela APMI. Segundo a presidente da APMI, Neusa Barbosa Margonar, a associação atende 3.500 pessoas diariamente com projetos sociais para crianças, mulheres e idosos. A coordenadora geral dos projetos da APMI, Márcia Cristina Paglia Sampaio, explica que as crianças e adolescentes praticantes de golfe já participam de projetos como a Oficina de Expressão, Núcleo de Aprendizagem para o Futuro (Naf) e Núcleo de Educação Social e Profissional (Nesp). ''Os adolescentes frequentam cursos de datilografia, office-boy, recepção de eventos, costura, auxiliar administrativo e de escritório, computação e culinária. Já a Oficina Geradora de Renda trabalha com jovens e adultos ensinando a produzir artesanato e alimentos para comercialização'', enumera Márcia. As atividades acontecem no contraturno escolar.
A coordenadora do projeto comenta que, se antes o golfe era visto pelos alunos como um esporte distante da realidade, hoje já caiu no gosto da garotada despertando em alguns até mesmo o interesse pela profissionalização. Os benefícios do golfe refletem-se no comportamento dos participantes. ''Concentração, desenvolvimento motor, sensibilidade, percepção corporal e espacial, ética, disciplina e respeito aos colegas são algumas das melhorias proporcionadas pelo golfe'', pontua Josiane. Outro aspecto que chama atenção no projeto é a possibilidade de geração de renda. ''Os acima de 16 anos podem trabalhar como caddie (caregador de tacos, e por conhecer bem o campo, muitas vezes orienta o golfista a escolher o taco corretamente) nos torneios de final de semana'', afirma. ''É visível a mudança de comportamento dos alunos. A prática esportiva incentiva a vontade de se destacarem e esta energia contagia todos os colegas'', acrescenta a coordenadora geral do Nesp, Luciane Meneghelo.
A própria história da professora com o golfe serve de incentivo aos alunos. ''Comecei como caddie aos 13 anos no Londrina Golf Club e pude me graduar em Educação Física com a remuneração deste trabalho. O golfe é reflexivo e desafiante e me mostrou que com esforço os sonhos tornam-se possíveis'', orgulha-se.
Ketelin Kauane Sobrinho Buçu, 15 anos, aluna do primeiro ano do Ensino Médio, está dando as primeiras tacadas. Para ela, o maior chamariz do projeto foi a possibilidade de trabalhar como caddie. ''Quando falaram que a partir dos 16 anos poderíamos trabalhar logo me interessei'', afirma. Para Heloísa Helena, 15 anos, também estudante do primeiro ano, o golfe já melhorou visivelmente sua concentração e percepção corporal. ''Inicialmente, os maiores desafios foram manter a atenção no jogo e saber ter o swing (balanço do corpo para dar a tacada).''
Segundo o presidente do Londrina Golf Club, Hélio Shibukawa, os associados apóiam o projeto por meio da doação de bolinhas e tacos velhos, contratação dos alunos para trabalhar como caddie e incentivo aos que se destacam. ''É a nossa responsabilidade social. Dois alunos estão se sobressaindo nas aulas e queremos adotá-los no campo. O apoio ao projeto também objetiva desmistificar a idéia que golfe é um esporte para elite. Há como praticá-lo sem gastar muito'', justifica Shibukawa. Para a professora Josiane, embora o golfe seja o esporte que mais tem se popularizado nacionalmente nos últimos anos, faltam no país mais campos públicos para que as pessoas tenham acesso ao esporte.

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