Godot, sem palavras
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 29 de abril de 1999
Jackeline Seglin 
O clássico Esperando Godot, do dramaturgo irlandês Samuel Beckett, teve inúmeras versões montadas desde sua estréia em Paris, em 1953. Hoje, o público da Mostra Nacional do Filo poderá conferir mais uma - por sinal, bastante peculiar. O grupo Teatro Experimental Universitário (TEU) - Stúdio I, de Santa Maria (RS), leva ao picadeiro do Circo da Funcart, às 22 horas, a tragicomédia representada por clowns, num espetáculo totalmente sem palavras.
A diretora Joice Brondani, formanda em Artes Cênicas, explica que para montar Godô o grupo se baseou numa pesquisa de elementos circenses, na poesia do cinema mudo e no clown psicológico. Esse clown é a parte de cada um dos atores. Não é como o palhaço de circo. Parte muito mais da ingenuidade e da tristeza. Um clown mais triste, detalha.
No texto de Beckett, os vagabundos Estragon (Gogo) e Vladimir (Didi) aguardam, perto de uma árvore numa estrada deserta, a chegada de Godot. Enquanto isso, inventam o que podem para passar o tempo. Sem ter mais o que fazer, eles alimentam as falsas esperanças que lhes permitem sobreviver. Outros dois misteriosos personagens, Pozzo e seu criado Lucky, entram na trama e contagiam o ambiente de Estragon e Vladimir.
Nesta montagem, o cenário é um circo decadente representado apenas por um mastro (que simboliza a árvore). Didi e Gogo são dois palhaços (Vilmar Rossi Jr. e Luiz Maurício Martins), Pozzo é o domador (Lúcia Royes), Lucky é a fera (Francisco Fleig). Baseados na história de Beckett, os clowns construíram ações, jogos e brincadeiras. Eles utilizaram alguns números de circo dentro da lógica do clown, antecipa.
O grande diferencial desta montagem é que durante os 55 minutos os atores não emitem uma só palavra. Um espetáculo mudo! Somente com sons, imagens, sensações, sugestões... Para montar Godô, o TEU iniciou em março do ano passado um treinamento de clowns e cinema mudo, seguido de jogos para coletar material de cena. A estréia aconteceu em novembro.
Neste espetáculo, a interação entre personagens e platéia pode ser um forte elemento. Temos uma estrutura fixa que dá liberdade aos atores de jogar com o público. Assim, eles permanecem atentos para responder a qualquer reação da platéia, conta.
A pesquisa musical levou o grupo a usar canções folclóricas de caixinhas de música, marchas de touradas que lembram os espetáculos circenses e a música clássica.
Os espectadores são convidados a embarcar no clima do espetáculo logo na entrada do circo, ao receber o programa de Godô: um saco de pipocas.


