Godot com sotaque paranaense
Cia. Armazém
comemora sucesso
da primeira
temporada da
nova montagem
Milton DóriaCena de Esperando Godot, de Samuel Becket, em cartaz até domingo no Guairinha
Zeca Corrêa Leite
Programa de final de semana para quem gosta de teatro: assistir à montagem de Esperando Godot, que o Armazém Cia. de Teatro está levando no Guairinha até domingo, em sua estréia nacional. Em cartaz desde a semana passada, o grupo vem conquistando entusiasmados aplausos a cada noite. Deu muito certo iniciarmos por aqui, comemora Patrícia Selonk, uma das protagonistas.
Como o Armazém deitou (recentes) raízes no Rio de Janeiro, há cinco meses, depois de dez anos em Londrina, voltar para o Estado natal tem uma conotação afetiva. O grupo é paranaense e para a gente é importante não perder esse vínculo, afirma Patrícia.Curitiba é conhecida como uma cidade onde muitos espetáculos vêm para ser testados. Para nós isso é muito legal.
Os londrinenses terão que esperar até dezembro, porque estava complicado a gente conseguir espaço, segundo a atriz. Além disso a Secretaria Estadual de Cultura deu um apoio inestimável. A secretária Lúcia Camargo sabia que estávamos trabalhando nessa montagem há meses. Ela fez questão que estreássemos aqui. Estamos em Curitiba por causa dela, esclarece Patrícia.
Adriano Garib, ator contratado pela Rede Globo, que volta a integrar o grupo a partir deste trabalho, no papel de Pozzo, espera que esse apoio continue. É muito importante para nós mostrarmos este espetáculo não só aqui, mas em outros lugares, até no exterior. Ele tem qualidade internacional e sabemos disso.
Como o curitibano está reagindo à peça de Samuel Becket? Muito melhor do que a gente esperava, comenta Patrícia. Ela observa que a resposta da platéia traz surpresas para os atores, como os risos nos momentos considerados os mais densos e dramáticos da obra. Isso vem a provar que a química do teatro é inesperada.
Tenho a impressão que as pessoas riem de nervosas. Porque, quando se estabelece uma situação limite no palco, a única saída é essa. É a reação padrão, considera Garib. Talvez elas até riam por estarem numa situação parecida, sugere Simone Mazzer.
Esperando Godot, um clássico do teatro mundial, mostra Estragon e Vladimir - dois vagabundosá vividos por Patrícia Selonc e Simone Mazzer - na expectativa da chegada de Godot. Passam por eles alguns personagens, mas aquele ser, exaustivamente citado, é o grande ausente. Para Ricardo Grings (Lucky), esta é a condição humana: Não se tem como fugir. A gente está sempre à espera de alguma coisa que virá - seja a tranquilidade, uma vida mais saudável, mais feliz.
Os atores nunca assistiram à Esperando Godot. As informações que receberam sobre montagens anteriores, dizem respeito a espetáculos sombrios, soturnos. A encenação de Paulo de Moraes optou por um caminho menos tradicional. Os tons do branco e preto deram vez às cores, ao sol e à lua. Estaria a peça mais leve na encenação do Armazém?
Não é isso, retruca Garib. Ele explica que o diretor optou por uma encenação com ritmo mais acelerado, justamente para evidenciar o vazio que se instala a seguir. Na tensão da espera os vagabundos inventam jogos para passar o tempo, e, como a maior parte ocorre durante o dia, por que não colocar o sol no palco?
Paulo deu cor ao espetáculo, não só no cenário e iluminação, mas também nos figurinos, argumenta o ator. Essa idéia de que Godot tem que ser em preto-e-branco, é uma verdade pré-concebida, a meu ver muito desgastada. Todo mundo que viu a peça até agora, gostou. A estética é agradável.
Esperando Godot- de Samuel Becket, direção de Paulo de Moraes. Com Patrícia Selonk (Estragon), Simone Mazzer (Vladimir), Adriano Garib (Pozzo), Ricardo Grings (Lucky), Simone Vianna (menino). Música de Arrigo Barnabé, cenografia de Gelson Amaral e Paulo de Moraes. No Guairinha. Hoje e amanhã, às 21 horas. Domingo, às 19 horas. Ingressos: R$ 15,00 e R$ 10,00 (classe artística).





