GODARD E 'VATEL' ABREM CANNES
Ventania nas ruas sempre lotadas, mediterrâneo gelado, trovoadas em céu cinzento e carrancudo e uma certa falta de ordem nas coisas internas do 53º Festival Internacional do Filme que começou ontem em Cannes. Mas o brilho por aqui independe da meteorologia estranha que escondeu o sol primaveril da Côte dAzur, ou de arrumações de última hora no interior do Palais des Festivals, ainda recebendo marteladas, furadeiras e retoques. Nada disso importa, porém. O último festival do milênio começou bem, sob o signo da inteligência. Tomara que seja premonitório.
Na tela, antes até da bela vinheta que já é marca registrada de Cannes, o filme-surpresa que a organização encomendou e o grande Jean Luc Godard realizou para abrir a mostra deste ano. Em dezessete rigorosos minutos, o mestre da nouvelle-vague oferece a sua concepção sobre o que é LOrigine du XXIe SiScle. Na tela, na visão de Jean Luc Godard, o mundo não apresenta coerência sequencial, aquela espécie de conforto que a linearidade propicia. Ao desenhar o que pode vir a ser o século 21, o cineasta de O Desprezo não é nada otimista. Neste filme-colagem, estamos num campo de filmagem que mais parece um campo de batalha. Para Godard, os referenciais básicos da civilização parecem estar perdidos. À medida em que ele retrocede no tempo em busca dos primórdios do século 20, mais a guerra e a destruição - material que sempre lidou com grande competência reflexiva, crítica e técnica - ocupam a narrativa, sempre fragmentária. Godard trabalha por associação de imagens e sons. O mundo dos 90 evoca o dos 80, 70, 60, 50... E tudo acaba remetendo ao próprio cinema, naturalmente sob a forma de citações, homenagens e práxis. Dos 60 para cá, pouca coisa mudou na formulação no universo godardiano. Talvez a disposição: se antes havia mais humor e satisfação, hoje ele se mostra glacial. A Origem do Século 20 deixou impaciente boa parte da crítica mais jovem presente a Cannes, que pode até achar que Godard seja exemplar jurássico. Mas é impossível ficar indiferente à coerência da digressão cinematográfica estampada na tela.
Vatel é mostrado
hors-concours
Um dos mais ambiciosos projetos de 2000, a megaprodução francesa Vatel foi o filme escolhido para abrir hors-concours o Festival de Cannes. Situado em extremo oposto ao quase experimentalismo autoral, solitário de Godard, ele parece sinalizar enfaticamente para a corrente majoritária que deverá dar as cartas do cinema a venir, o cinema do amanhã que trabalhadores de todas as áreas do fazer cinematográfico discutiram até ontem em Cannes durante encontro promovido pelo festival e pelo jornal Le Monde. Um cinema de apelo espetacular , globalizado, sem que isto represente perda de qualidade. Ao contrário: a julgar por Vatel, valores materiais de ponta teriam convivência harmoniosa com valores humanos universais, apesar de veiculados em inglês...
Em 1671, o príncipe de Condé (Julian Glover) deve receber em sua residência o rei Luís XIV (Julian Sands) e toda a corte. Para a recepção, o dono da casa encarrega o talentoso cozinheiro François Vatel (Gerard Depardieu), uma espécie de antepassado do nosso corrente promoteur, de organizar os mais esplendorosos banquetes e repastos. Em busca da perfeição absoluta, Vatel atinge o objetivo até o último dia, quando o peixe encomendado não chega a tempo para a confecção de iguarias. O destino do cozinheiro é trágico. Este é o argumento simplificado, mas nele habitam principalmente as subtramas que envolvem extensa galeria de nobres, agregados e parasitas de um lado, plebeus anônimos e serviçais explorados de outro. Não sem razão, Jean Renoir e As Regras do Jogo foram invocados pela roteirista Jeanne Labrune durante a coletiva. O painel do século 17, descrito aqui com extrema elegância e irresistível apelo visual, comporta agudas observações sociais não apenas sobre determinado período da história da França como trabalha com uma lente de aumento em cima de personagens e suas grandezas e misérias humanas - suas paixões, enfim. Como a de Vatel, que ama seu trabalho e busca a quintessência na arte de entreter. Ou como a do Marquês de Lauzin (Tim Roth), especialista em intrigas palacianas e maldades diversas.
Apesar da opulência formal - quase 40 milhões de dólares, evidentes em cada fotograma -, Vatel tem roteiro fascinante (adaptado para o inglês por Tom Stoppard Shakespeare Apaixonado) e direção de Roland Joffé precisa como um relógio. Na coletiva logo após a projeção, o carisma de um maciço Gerard Depardieu acabou monopolizando as atenções. Seu personagem, que representa uma volta por cima numa carreira de muitas concessões, algumas inqualificáveis, é realmente bom, consistente. E o ator não desperdiçou a oportunidade.
Em seguida, o júri se apresentou à imprensa. Morna, arrastada, quase catatônica, a coletiva nada acrescentou ao perfil de cada um. Esperava-se um mínimo de polêmica em torno da presidência, a cargo de Luc Besson e seu cinema hollywoodiano. A bela Aitana Gijon lamentou a falta de filmes espanhóis em competição; o italiano Mario Martone idem, em relação a seu país. Kristin Scott Thomas resumiu seu tédio em concordar com todos.
Barbara Sukova entrou muda e saiu calada. Jonathan Demme está vey exited por estar no júri. E Jeremy Irons, mal dormido e irritado, sintetizou o que deveria ser a pensamento de todos e a meta de qualquer júri de cinema.
Quando perguntado sobre o que achava da predominância de filmes asiáticos na mostra competitiva, disse o óbvio e necessário: Cinema é saber contar histórias. Não importa por quem, de que país.
- Carlos Eduardo Lourenço Jorge está em Cannes a convite do festival.





