São Paulo - Havia a expectativa, no Festival de Berlim do ano passado, de que a chilena Paulina García vencesse o Urso de Prata de interpretação feminina. Havia, na realidade, a expectativa de que o próprio filme de Sebastián Lelio, Gloria, vencesse o Urso de Ouro, como melhor da Berlinale de 2013. O júri preferiu outorgar o troféu ao romeno Calin Peter Netzer, de Child?s Poze, mas Paulina foi recompensada, e era fundamental que fosse.
Já houve a Gloria de John Cassavetes (Gena Rowlands), houve o remake de Sidney Lumet (com Sharon Stone), mas Gloria como a de Paulina García nunca houve.
Ela é uma cinquentona que frequenta as baladas para terceira idade de Santiago. Gloria acostumou-se a viver a vida pelos e para os outros. O que o filme vai fazer é captar - expor? - esse momento decisivo em que Gloria se dá conta de que tem de viver a própria vida. Os filhos são adultos, têm seus problemas que ela não pode resolver. A própria Gloria se envolve com um coroa casado. Ele a envolve numa conversa de que vai largar a mulher (e a família). Mas não tem coragem e Gloria pega em armas, simbolicamente. A cena provocou verdadeira catarse do público. Os aplausos foram estrondosos na sessão de imprensa, na oficial. E isso, com certeza, pavimentou o caminho para que Paulina fosse melhor atriz.
Num encontro com o repórter, no próprio Palast - o palácio do festival -, Sebastián Lelio contou que o filme nasceu de um duplo desejo. "Embora não seja um filme autobiográfico de minha mãe, queria falar sobre a geração dela, sobre suas amigas que conheço tão bem. Entrevistei mulheres da mesma faixa etária, e apenas constatei o que já percebia, ou sabia. A expectativa de vida aumentou muito, as mulheres ampliaram seu espaço e, mesmo aquelas que se dedicavam aos afazeres do lar, descobrem que agora têm tempo para elas. Muitas são separadas, viúvas. Querem viver. E frequentam esses bares e bailes. Isso foi uma coisa. Mas eu queria muito filmar com Paulina (García). Sempre a achei grande, mas o cinema só lhe dava pequenos papéis. O filme já nasceu com essa ambição - oferecer um grande papel a Paulina."
O baile, a balada eram fundamentais no filme. "Se Paulina não dançasse, não haveria filme. Acho que o mundo se divide entre pessoas que dançam, e outras que não. Dançar pressupõe uma atitude diante da vida, uma consciência do próprio corpo. Para mim, é o tema de Glória. Ela toma consciência de quem é, do que quer, e vai batalhar por isso."

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