Glória e Tarcísio: eles merecem
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quarta-feira, 17 de agosto de 2005
Carlos Eduardo Lourenço Jorge<br> De Gramado<br> Especial para a Folha 2 
Eles não são apenas o casal 20. Eles são o dobro disso. Estão juntos, e bem juntos, há 43 anos. Ele é Tarcísio Magalhães Sobrinho, Meira para os efeitos da Glória. Dela, que aliás nasceu Nilcedes Soares Magalhães. O nome artístico do casal está, claro, acima de tudo associado à galeria de muitos títulos da teledramaturgia global com audiência cativa na ''novela das 8'', embora teatro e cinema também abasteçam os respectivos currículos. Mas se Gloria tivesse atuado apenas num único filme, ''O Pagador de Promessas'' - e ela ainda fez outros sete -, sua estréia em 1962 com direito a Cannes & Palma de Ouro inédita e única, somente este fato já bastaria para garantir lugar de honra na história do nosso cinema.
E Tarcísio, mesmo marcado a fogo pela extensa lista de papéis televisivos, deixou sua imponente presença na tela grande tanto em superproduções comerciais como ''Independência ou Morte'' quanto em dramas intimistas de pretensão autoral, atuando em filmes de Glauber Rocha, Walter Hugo Khouri, Arnaldo Jabor e Bruno Barreto.
Tarcísio e Glória foram os grandes homenageados desta 33 edição do Festival de Gramado - Cinema Brasileiro e Latino. Uma bela festa, anteontem à noite no palco do Palácio dos Festivais, completamente lotado, quando eles receberam o Troféu Oscarito. Foi uma longa e merecida ovação, seguida dos agradecimentos de um Tarcísio já quase sem voz e uma Glória embargada por grande emoção. O ator, confessando sua admiração e carinho pelo comediante Oscarito, que dá nome ao troféu, confessou que este era o Oscar que sempre quis receber.
Curioso, e sintomático: a grade da programação de filmes da segunda noite da mostra competitiva de Gramado não incluiu documentário brasileiro, somente uma ficção. E aí o nível caiu. Não que desabasse, mas...
Paulo Betti está estreando na direção, em parceria com o cenógrafo Clovis Bueno. O filme, inscrito como produção paranaense, é ''Cafundó'', cinebiografia livre de João de Camargo. E quem é João de Camargo? Trata-se de um personagem real, um negro, ex-escravo sem rumo ou perspectiva, sobrevivendo no interior do Brasil da virada do século 19. Traído um dia pela mulher branca, desce ao mais fundo da degradação, e de lá emerge como alguém iluminado por visões que são afinal a essência do sincretismo religioso, elemento forte na composição do povo brasileiro. Sua obra religiosa permanece influente ainda hoje na figura do Preto Velho João de Camargo, o ''Papa Negro de Sorocaba''.
É uma narrativa interessante, mas somente a partir da segunda metade. É na primeira parte que o filme é débil, desamarrado, deixando o espectador tão errante e desconsolado quanto o personagem bem vivido por Lázaro Ramos. Há uma carência de informações, uma nebulosidade, uma apatia dramatúrgica que deixa a platéia às tontas, quando não inerte diante do que está presenciando. Embora não seja tarde demais, quando a trama define de fato seus rumos e sua proposta, torna-se necessário buscar uma dose suplementar de interesse. Que afinal comparece, deixando a impressão de que uma revisão, daqui a algum tempo, fará bem ao filme da dupla Betti-Bueno.
O primeiro fora de concurso exibido em Gramado-2005 foi ''2 Filhos de Francisco'', ambiciosa produção da Conspiração Filmes que estréia nesta sexta-feira no circuito nacional com 250 cópias em cerca de 300 salas. É a dramatização da trajetória familiar e artística da dupla sertaneja Zezé de Camargo e Luciano, aí incluídas dificuldades do pai Francisco para criar os filhos, tragédias e vitórias. Entre elas, o sucesso de uma carreira traduzido em 22 milhões de discos vendidos. Embora exibido no último horário, terminando quase às duas da manhã, o filme foi muito aplaudido.
E os primeiros latinos deram as caras. Da Argentina veio ''Buenos Aires 100 KM'', sobre cinco garotos adolescentes, todos com 13 anos, vivendo em pequena cidade distante da capital os cem quilômetros do título. Passam os monótonos dias de verão sentados conversando, jogando futebol ou andando de bicicleta nos arredores. Todos esperam mudanças em suas vidas; fazem planos mirabolantes, despertam para o sexo e estão sempre em conflito com os pais. Mas há segredos por trás de cada um, segredos que, uma vez revelados, deixam um travo amargo nesta existência insossa. Também estreante, o argentino Pablo Jose Meza faz a clássica radiografia dos ritos de passagens, da amizade adolescente, do primeiro amor fugidio, do ardor da rebeldia e da solidariedade. Mesmo não propondo nada de novo, o filme se porta bem e satisfaz.
Oque aconteceria se um dia a Califórnia amanhecesse sem...mexicanos ? Esta é a proposta da comédia dirigida por Sergio Arau, caricaturista e ex-roqueiro. Partindo desta ótima idéia original, o filme acaba não entregando satisfatoriamente o que promete. Uma névoa misteriosa cerca o Estado da Califórnia, e nela desaparecem todos os mexicanos, reaparecendo 24 depois. Mas durante este período instala-se o caos, já que dois terços da população do Estado vieram do país vizinho. O que Arau não conseguiu foi uma forma de articular de maneira mais convincente os elementos da trama. A idéia de que a vida californiana não seria a mesma sem mexicanos - principalmente os encarregados do trabalho duro, das tarefas sujas - era de fato ótima, mas o filme se perde num emaranhado de subtramas e personagens sem função na história. E quando se sabe que na origem deste longa metragem primeiro existiu um curta de 28 minutos, muito bem sucedido, e que o diretor decidiu transformar em longa, tudo afinal se esclarece.


