Glóra Perez adapta livro de Drummond
PUBLICAÇÃO
domingo, 13 de abril de 1997
Júlio Gama Agência Estado 
Pela primeira vez na TV, uma obra de ficção vai retratar os anos que antecederam o golpe militar de 64. Hilda Furacão, romance escrito pelo mineiro Roberto Drummond, em 1991, está sendo adaptado por Glória Perez para virar uma minissérie de 20 capítulos na Globo, com direção de Luiz Fernando Carvalho, no ano que vem.
A obra, cujos direitos a emissora comprou há cinco anos, conta a misteriosa história de Hilda, bela mulher de classe média alta que, sem explicações aparentes, abandona o conforto de casa e uma milionária proposta de casamento para viver como prostituta na zona boêmia de Belo Horizonte.
A história de Drummond e a de Glória se passam entre 1º de abril de 1959 e 1º de abril de 1964, um dia após a revolução que depôs o presidente João Goulart, o Jango. É muito interessante resgatar esse período pré-golpe, que nunca foi contado na TV, diz Glória. Falou-se até de 68, mas com a ditadura
instalada, e Hilda se passa nos anos antes. Para reconstituir esses anos, Glória pensa em inserir as musiquinhas da campanha de Jango e imagens de discursos da época ou em colocar personagens discutindo o voto no Marechal Henrique Lotti ou em Jango. Quero trazer o sabor desta época para quem viveu e apresentá-lo a quem não viveu, diz.
FantasiaA escritora vai trabalhar dois aspectos do livro na adaptação: a inquietação política como pano de fundo da vida de Hilda e o cotidiano da prostituta sem, no entanto, radiografar sua vida. Vamos trabalhar a fantasia que homens e mulheres têm a respeito da prostituta.
Até os 18 anos, Hilda era conhecida como a Garota do Maiô Dourado do Minas Tênis Clube, mais tradiconal clube de Belo Horizonte, por quem jovens se apaixonaram (dizem que mais de um se matou por ela) e que acumulou propostas de casamentos de fazendeiros.
Um dos personagens, Frei Malthus, apaixonado por Hilda, a descreve assim: Trazia toda a alegria do mundo; era clara, tinha a Itália materna na pele e a Alemanha paterna nos olhos cor de fumaça e um certo quê louro nos cabelos lindamente presos; e a arrogância, esse não abaixar a cabeça, esse não desviar os olhos...O vestido era um tomara-que-caia preto, que assumia a forma surpreendentemente jovem de seu corpo... E completa o narrador: Ele teve medo de pensar que ela não usava sutiã e que seus seios recordavam duas maçãs argentinas e eram inquietos como os pássaros do paraíso...
Pois no dia 1º de abril de 1959, dia de seu aniversário, sem ninguém entender o por quê, Hilda deixa sua casa e vai ocupar, por exatos cinco anos, o quarto 304 do Maravilhoso Hotel, na Zona Boêmia da cidade. Formavam-se filas intermináveis à procura da moça cujo beijo, fazia os homens subirem pelas paredes.
Hilda é misto de ficção e realidade. Difícil é saber quem existiu e quem saiu da imaginação de Drummond. Glória se diverte com esse jogo. Já estou com uma lista dos homens que namoraram a Hilda. São uns 10 ou 15 suspeitos, mas até agora o único a admitir que teve um namorico com ela quando era a garota da piscina foi o Borjalo (cartunista), conta a escritora. Mas parece que o Mário Lúcio Vaz (diretor da Central Globo de Produção) também teve um affair com a Hilda.
Glória começa a escrever o texto definitivo após o julgamento de Paula Thomaz, acusada da morte de sua filha, a atriz Daniella Perez. Nos próximos dias, a escritora deve encontrar-se pela primeira vez com Drumond em Belo Horizonte. É interessante tratar do mito da prostituta numa sociedade que é muito conservadora.
Sete atrizes estão sendo sondadas para viver Hilda Furacão:
Letícia Sabatella, Letícia Spiller, Patrícia Pillar, Mônica Carvalho, Carolina Ferraz, Cristiana Reali e Débora Bloch.


