A escritora Maria Adelaide do Amaral não escolheu fazer a adaptação de ‘‘Os Maias’’ por acaso. É, na verdade, uma volta às origens. Nascida em Portugal há 57 anos, na cidade do Porto, ela chegou ao Brasil quando ainda tinha 12 anos. Agora, depois de quase seis décadas, ela se baseia na obra do conterrâneo, o jornalista e escritor português Eça de Queiroz, para escrever mais uma macrossérie da Globo, prevista para estrear em janeiro de 2001. Para tanto, a autora chegou até a viajar para Portugal, na companhia do diretor Luiz Fernando de Carvalho, para pesquisar a vida do escritor.
Um dos primeiros lugares que eles visitaram foi o cemitério em que o autor de obras como ‘‘Primo Basílio’’ e ‘‘Os Crimes do Padre Amaro’’ está enterrado, na capital portuguesa. ‘‘Queremos desvendar para o grande público brasileiro o mundo polêmico de Eça de Queiroz’’, antecipa a escritora.
A exemplo de ‘‘A Muralha’’, também escrita por Maria Adelaide, esta produção vai ter 48 capítulos distribuídos por, pelo menos, 12 semanas. Só que este trabalho promete gerar muita polêmica. É que o mote central da história vai ser a prática de um incesto. Um médico acaba se comprometendo com uma mulher mais jovem e, às vésperas do casamento, descobre que a noiva é sua irmã. Eça de Queiroz foi um jornalista atuante no século passado e era um defensor assumido das causas populares em suas crônicas, mantendo um estilo bastante irônico para a época.
O elenco da trama ainda está sendo definido. Selton Mello, Matheus Nachtergaele, Raul Cortez, Maria Luíza Mendonça, Osmar Prado e Cecil Thiré estão cotados. A intenção da Globo é gravar as externas da macrossérie em algumas cidades portuguesas. Pelo projeto inicial, ‘‘Os Maias’’ não vai contar nem com cidade cenográfica. No caso, a equipe técnica e elenco ficariam dois meses gravando somente em locações na ‘‘terrinha’’ e, posteriormente, nos cenários e estúdios do Projac. Esta, aliás, foi uma das razões que motivou a escritora e o diretor a viajarem para Portugal. ‘‘Quando a macrossérie for ao ar, já queremos ter gravado mais da metade dos capítulos’’, planeja Luiz Fernando Carvalho, que volta a dirigir uma produção na Globo depois de quase quatro anos: a última foi ‘‘O Rei do Gado’’, de Benedito Ruy Barbosa, exibida em 1996.
O ator Otávio Augusto, que irá interpretar um político inescrupuloso, está entusiasmado com o projeto. Principalmente porque é o primeiro trabalho que realiza sob a batuta de Luiz Fernando. ‘‘Dizem que é um diretor que dá um tratamento de cinema às produções’’, enfatiza Otávio, que já começou deixar a barba e o cabelo crescerem para composição do personagem. ‘‘É um trabalho que tem tudo para dar certo’’, prevê Otávio.
Maria Adelaide faz coro e diz que espera que ‘‘Os Maias’’ repita o mesmo sucesso de ‘‘A Muralha’’, que manteve uma média de 25 pontos no Ibope, considerado excelente para depois das 22 horas. Ela atribui o sucesso das minisséries e macrosséries da Globo ao trabalho detalhado de pesquisa desenvolvido sobre os temas escolhidos. ‘‘O telespectador brasileiro gosta de saber tudo que faz parte da história, principalmente quando é escrito de forma romanceada’’, ensina a autora.
Depois de ser colaboradora de escritores como Sílvio de Abreu e Cassiano Gabus Mendes, Maria Adelaide vem se consolidando como uma das escritoras mais respeitadas da emissora. Com carreira formada no teatro, ela só estreou na tevê em 1990, na novela ‘‘Meu Bem, Meu Mal’’, de Cassiano Gabus Mendes.
Depois, colaborou em ‘‘O Mapa da Mina’’, também de Cassiano, ‘‘Deus nos Acuda’’ e ‘‘A Próxima Vítima’’, ambas de Sílvio de Abreu. Mas o vôo solo só ocorreu em 1997 no ‘‘remake’’ de ‘‘Anjo Mau’’, baseado na obra de Ivani Ribeiro. ‘‘Antigamente hesitava trabalhar na tevê porque considerava o veículo uma máquina de moer gente’’, explica a autora, garantindo que hoje a concepção mudou. Ela percebeu que na tevê também se consegue fazer um trabalho minucioso.

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