Globo de Ouro - Um recorde e um discurso para lembrar
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terça-feira, 10 de janeiro de 2017
Carlos Eduardo Lourenço Jorge<br>Especial para a Folha 2 

A falha inicial do teleponto (ou teleprompter aquele equipamento acoplado às câmeras de vídeo que exibe o texto a ser lido pelo apresentador) - no caso Jimmy Fallon - durante o monólogo inicial foi um dos poucos momentos em que a gala dos Globos de Ouro 2017 saiu dos eixos como produção. Como sempre foi tudo muito organizado. E para não cair na burocracia sem imaginação de quase todos os anos, é preciso que um fato, ou alguém notável, faça a diferença, porque três horas e meia podem esgotar a paciência de justos, pecadores e indecisos. Como o musical "La La Land Cantando Estações" (estreia brasileira dia 19), de Damien Chazelle, foi logo acumulando prêmios, aliás todos os sete a que concorria, o fato que se esperava apareceu, e inédito. No entanto, faltava alguém a empunhar inteligência e criatividade. Mas também teve, e como! Primeiro, a hilária dupla Steve Carrell e Kristen Wiig, antes de anunciar o prêmio para melhor animação, revelou seus filmes preferidos na categoria. Duas performances de ouro, às custas de dois clássicos Disney que marcaram (com alegria e também pelo medo) a infância de gerações: "Fantasia" e "Bambi".

E "last, but not least", a assombrosa intervenção de Meryl Streep - prêmio Cecil B. De Mille à carreira -, um solilóquio antes que um discurso, no momento mais explicitamente político da cerimônia. A lendária protagonista de "A Escolha de Sofia", "A Mulher do Tenente Francês", "As Horas", com a dignidade e autoridade que lhe outorga a condição de uma das maiores atrizes da história do cinema, bateu em Donald Trump com serenidade, alta classe e valentia, condenando entre outras coisas o cruel bullying que o presidente eleito fez de público com um jornalista deficiente durante a campanha. Meryl fez ainda uma ardente defesa da diversidade através do trabalho do ator, bem como da liberdade de imprensa. E sentenciou: "A falta de respeito provocará mais falta de respeito; a violência convida a violência", em clara alusão ao discurso de Trump contra a imigração.

E assim, sem pompa nem circunstancia, exceção para a bela homenagem a Debbie Reynolds e Carrie Fisher, a gala sob custódia de imprensa estrangeira se dedicou àquilo que saber fazer e o que tem que ser: prêmios e mais prêmios, que ratificaram a carreira de "The People vs O.J. Simpson" (melhor minissérie de TV e melhor atriz para Sarah Paulson), reconheceram o sangue azul de "The Crown", melhor série dramática e melhor atriz (Claire Foy), celebraram as diferenças (sexual e racial) em "Moonlight", melhor filme dramático, e mandaram recado curto e grosso aos hipócritas e falsos moralistas (leia-se Academia de Artes e Ciências Cinematográficas, aliás o Oscar) que esnobaram o maravilhoso "Elle", de Paul Verhoeven: melhor filme estrangeiro e melhor atriz (Isabelle Huppert).

No final das contas, saiu-se bem a Associação da Imprensa Estrangeira de Hollywood. Mas é bom pensar em outro condutor da gala para 2018: Jimmy Fallon é visivelmente um blefe.


