Globo dá carta branca para Ruy Barbosa contar a saga dos imigrantes italianos em "Terra Nostra"
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domingo, 27 de junho de 1999
Por Júlio Gama 
ão Paulo, 28 (AE) - "Terra Nostra", a próxima novela das 8 da Globo, que começou a ser gravada há pouco mais de uma semana no Porto de Santos, no litoral de São Paulo, é a oportunidade de o autor Benedito Ruy Barbosa contar a saga dos imigrantes italianos no Brasil, a partir do fim do século passado, da maneira como imaginou em 1980. Na época, Ruy Barbosa apresentou a sinopse da história à Globo que, líder absoluta da audiência, recusou. A Bandeirantes encarou o desafio e produziu a novela "Os Imigrantes". Conseguiu média de 37 pontos na audiência e deixou a direção da Globo desesperada. Disposta a faturar rápido, no entanto, a direção da Bandeirantes descuidou da produção, obrigando Ruy Barbosa a abandonar a história após encerrar uma das fases. O autor guardou as duas mil cartas que recebera com relatos emocionados de imigrantes e soube, desde então, que poderia escrever outra novela a partir da história daquelas pessoas que viajavam amontoadas nos porões ou jogadas no tombadilho úmido dos navios que partiam da Europa com destino à América desconhecida. Ruy Barbosa lembrou-se de sua epopéia de imigrantes há três meses, quando recebeu em sua casa, em Sorocaba, a 90 quilômetros de São Paulo, a visita da superintendente da Globo, Marluce Dias da Silva. Marluce fora decidida a convencer o autor a escrever a novela das 8 que substituiria "Suave Veneno", de Aguinaldo Silva. Ao colocar o ponto final em "O Rei do Gado", de 1996, Ruy Barbosa anunciou que estava muito cansado e deixaria de escrever novelas para dedicar-se às minisséries. Não foi tão fácil como Marluce deve ter imaginado, mas o autor acabou concordando em voltar às novelas, não sem a seguinte ressalva: "Só se for um projeto muito ousado, que comece no século passado e se desenrole até a virada do milênio". Marluce não apenas aceitou como disse o que todo autor sonha ouvir: "Você imagina e a gente faz". Ruy Barbosa imaginou, escreveu a sinopse e mais 16 capítulos de "Terra Nostra", uma saga de 233 capítulos dividida em três fases e com subtítulos em cada uma de suas etapas. Em 20 de setembro, portanto, vai estrear "Terra Nostra - Esperanza" (assim mesmo, em italiano). Essa fase tem início em 1894, com a partida do navio da Itália trazendo os primeiros imigrantes da história e se prolongará até 1930, após a quebra da bolsa de Nova York. A segunda fase começa em 1945, com o fim da ditadura Vargas e da 2.ª Guerra, e prolonga-se até o golpe militar de 1964. A terceira e última fase tem início na reabertura política em meados dos anos 80 e segue até a virada do milênio. A expectativa na Globo é de que a nova novela registre média de 60 pontos de audiência. "Suave Veneno", que está no ar, registrava 38 pontos de média no mês passado. "Serão três novelas dentro de uma novela", explica o autor, acrescentando que não definirá quantos capítulos terá cada fase. "Se a primeira fase comportar cem capítulos, assim será, mas se eu achar que deve mudar no capítulo 30 ou 50, eu mudo", diz. O que Ruy Barbosa promete não aceitar, e avisou a Marluce, é esticar a novela para agradar à audiência ou levar sua trama para onde apontar as pesquisas que a emissora costuma encomendar entre os telespectadores. "Não vou espichar a novela de forma alguma", avisa Ruy Barbosa
que também rejeita as pesquisas. "Pesquisas são o relatório do óbvio", afirma. "Tenho de contar a minha história, do contrário acabo por trair-me e ao público também". A história de Benedito começa em 1894, com a partida do navio apinhado de imigrantes. Durante a viagem de 30 dias entre a Itália e o Porto de Santos, Giuliana (Ana Paula Arósio) perde os pais, interpretados por Gianfrancesco Guarnieri e Bete Mendes, vítimas da peste negra, o cólera. A bela jovem é consolada por Mateo (Thiago Lacerda). Os dois apaixonam-se, Mateo pega a peste, mas sobrevive, sob os cuidados de Giuliana. Nasce o amor mais forte da trama. Juram ficar juntos na nova terra. Giuliana é esperada no Porto de Santos por um grande amigo de seus pais (Francesco, interpretado por Raul Cortez), que chegou há mais tempo ao Brasil e é bem-sucedido. "Foi esse amigo quem incentivou os pais de Giuliana a tentar a vida no Brasil e, por isso, ele se sente responsável pela jovem ao saber que seus pais morreram na viagem", adianta o autor. Na chegada, porém, Giuliana perde-se de Mateo, que segue para trabalhar numa das fazendas de café no interior do Estado. Francesco poderia ajudar a encontrar o jovem, mas seu filho se apaixona por Giuliana e dificulta a procura. "Nem eu sei se os dois voltarão a encontrar-se no decorrer da trama", informa Ruy Barbosa. Um dos destaques de "Terra Nostra - Esperanza" é o navio inglês S.S. Shiedall, construído em 1940. O navio, a vapor, é muito semelhante às embarcações que traziam os imigrantes europeus para as Américas na virada do século. Durante semanas, a produção da Globo vasculhou portos e estaleiros de várias partes do mundo à procura do navio que se encaixasse na descrição da história de Ruy Barbosa. O diretor Jayme Monjardim encontrou o S.S. Shiedhall no porto de Southampton, na Inglaterra. A Globo alugou o navio por uma semana e nas próximas duas semanas inicia as gravações da partida com 400 figurantes estrangeiros. Marluce voltou à casa de Ruy Barbosa poucas semanas atrás, desta vez acompanhada do marido, o professor da Fundação Getúlio Vargas e empresário Eurico Cunha. O autor aproveitou para contar a Marluce mais detalhes sobre "Terra Nostra" e a convidou a ouvir a bela trilha inédita da abertura da novela. Marluce emocionou-se. Duas semanas atrás passou um fax para o autor no qual ressaltava a emoção que sentiu ao ter contato com a história dos imigrantes que a emissora levará ao ar em seu horário mais nobre.


