Globo dá banho de loja em Ana Maria
André Bernardo
TV Press
De tempos em tempos, a Globo recorre a uma estratégia nada original para reforçar a programação. Quando a emissora começa a perder a liderança no ibope ou encontra dificuldade para emplacar novas atrações, o jeito é contratar estrelas da concorrência. Antes de a nova atração ir ao ar, porém, a Globo promove um autêntico banho de loja no recém-contratado. Afinal, o reforço não pode afrontar o já tradicional padrão global de qualidade. Foi assim há 25 anos, quando o então todo-poderoso da Globo, Walter Clark, torcia o nariz para o linguajar irreverente de Abelardo Barbosa, o Chacrinha. No decorrer dos anos, Os Trapalhões, Fausto Silva e, mais recentemente, Ana Maria Braga seguiram pelo mesmo caminho. Só que o resultado nem sempre é satisfatório.
Desde que foi contratada pela Globo, a ex-apresentadora do Note e Anote levou quatro meses para estrear. A demora, no entanto, se justifica. Mesmo não querendo abrir mão do estilo cafona que a consagrou como a rainha da Record - que inclui desde um ridículo par de luvas até o bizarro hábito de passar por debaixo da mesa - Ana Maria teve de se sujeitar a algumas exigências impostas pela superintendente executiva da Globo, Marluce Dias da Silva. A alta cúpula da emissora escalou até um estilista para cuidar da mudança no visual de Ana Maria Braga. O escolhido para reformar o guarda-roupa da apresentadora e encaixá-la no chamado padrão global foi Lessa de Lacerda. Tudo em vão. Não há terninho Armani que dê jeito em Ana Maria Braga.
Apesar disso, a estréia do Mais Você até que não foi das piores. O programa registrou uma média de 23 pontos, contra 14 do SBT e três da Record. Hoje, um mês depois, a média já não é tão animadora. Afinal, o Mais Você não consegue passar dos 16 pontos, o mesmo índice que o Vídeo Show registrava no horário. Mesmo assim, a Globo não desiste e já cogita novas alterações no visual espalhafatoso de Ana Maria Braga. Segundo a figurinista Sônia Soares, a lourice da apresentadora está com os dias contados. Em dois meses, Ana Maria vai ganhar um tom mais escuro nos cabelos.
Ana Maria Braga, porém, não é um caso isolado. Um apresentador popular não precisa necessariamente mudar de emissora para ter o visual reciclado. Gilberto Barros também passou recentemente por um banho de loja. O apresentador do Leão Livre, da Record, resolveu tentar eliminar todo e qualquer resquício deixado por Carlos Massa, o Ratinho. Deste modo, desde o quinteto Os Wiskisitos que acompanhavam o roedor no extinto Ratinho Livre até os dispensáveis ajudantes de palco, como o Brasa e a Rodela, foram banidos do programa. O próprio conteúdo mundo-cão já não tem mais o mesmo espaço. Recentemente, Gilberto Barros afirmou que não mostraria mais desgraças alheias, nem exploraria gente humilde portadora de doenças terríveis. Em vez disso, adotou uma linha muito próxima daquela inaugurada por Jô Soares no SBT. Até o cenário e a música são praticamente iguais. Mas as semelhanças param por aí. Da forma ao conteúdo, a distância é muito grande. No final das contas, até a audiência despencou de 8 para 3 pontos.
O apresentador Gilberto Barros pode até achar que deu uma roupagem mais light ao programa, mas o telespectador mais exigente não se deixa enganar. A estratégia de sofisticar atrações de cunho popular é arriscada e nem sempre alcança bons resultados. Fausto Silva é um bom exemplo disso. O apresentador do Domingão do Faustão, embora sempre tenha obtido audiências expressivas, perdeu completamente a espontaneidade que demonstrava nos tempos de Perdidos na Noite, da Band. Ana Maria Braga e Gilberto Barros entraram no mesmo beco sem saída. Por um lado, o público que se acostumou com o seu jeito irreverente pode não enxergar com bons olhos a repentina mudança de estilo. Por outro, telespectadores de olhar crítico e gosto refinado não se deixam iludir com essa aparente revolução estética. Com isso, eles nem angariam novos telespectadores e, ainda por cima, correm o risco de perder o que consideravam ser o público cativo dos seus respectivos programas.





