Para evitar o risco de se enfraquecer nas negociações com a Anatel (Agência Nacional de Telecomunicações) pela escolha do padrão de TV digital a ser adotado no Brasil, a Globo teve de recuar em uma reivindicação que faria ao governo e acatar decisão das emissoras concorrentes.
Nas últimas reuniões entre as TVs e a Anatel, a Globo defendia junto à agência que as emissoras fossem liberadas para transmitir programação digital assim que recebessem a concessão e se equipassem para a transmissão. A idéia era ser a primeira a exibir seus programas no novo sistema.
Mas SBT, Record, Bandeirantes e Cultura queriam que fosse estipulado pelo governo um prazo mínimo, antes do qual as emissoras não poderiam transmitir no sistema digital, isso para que todas pudessem se equipar e passar ao sistema simultaneamente.
Depois de muita negociação, a Globo decidiu se unir ao bloco das concorrentes. Em fevereiro, Globo, SBT, Record, Bandeirantes e Cultura entregaram ao presidente da Anatel, Renato Guerreiro, um documento em que defendem seus interesses na regulamentação da TV digital.
No documento, as emissoras pedem um prazo mínimo de 18 meses para o início das transmissões digitais após a regulamentação. Assim, a novela da TV digital ganha mais um ano e meio de duração. Como o governo adiou novamente a decisão inicial do processo - a escolha de qual padrão será adotado pelo país, prevista para março ou abril -, as primeiras transmissões digitais no país deverão ocorrer só a partir do segundo semestre de 2003.
Isso levando em consideração que o final do processo de escolha, com a regulamentação, seja concluída ainda em 2001. No ano passado, previa-se que as primeiras transmissões seriam em 2002.
‘‘As outras emissoras não estavam de acordo com a Globo, que teve de voltar atrás. Se não voltasse, ficaria sozinha e a gente poderia fazer o que bem entendesse no resto (das negociações)’’, afirma Luiz Eduardo Borgerth, que trabalhou na Globo durante 30 anos e atualmente é consultor do SBT.
Fernando Bittencourt, diretor de engenharia da Globo e coordenador do grupo SET/Abert (Sociedade de Engenharia de Televisão e Associação Brasileira de Emissoras de Rádio e TV), disse que a emissora não teve problemas em aceitar a decisão das concorrentes. ‘‘Na questão da TV digital, todas as emissoras estão unidas. Percebemos que não havia motivo para querer transmitir antes de todo mundo’’, afirmou.
Nesse documento enviado à Anatel, ao qual a reportagem teve acesso, as emissoras resolveram evitar o lobby pela adoção do padrão japonês, defendido pelo grupo SET/Abert. A estratégia foi a de não mostrar uma pressão à Anatel, já que a relação entre a agência e as emissoras abalou-se em novembro de 2000, quando o grupo das TVs criticou publicamente o adiamento da decisão sobre o padrão a ser adotado no país.
Em março, a TV digital voltou a ser debatida entre as emissoras e a Anatel. O motivo foi a transmissão digital experimental que o grupo SET/Abert realizou no Rio. O padrão usado foi o japonês, apontado como o melhor tecnicamente por testes realizados pelas emissoras entre 1999 e 2000.
Para a demonstração, o grupo colocou, em um hotel do Rio, um aparelho de TV que custa em torno de R$ 25 mil, capaz de captar os sinais digitais. Nesse aparelho, foram transmitidas imagens em alta definição. Um televisor de 14 polegadas foi usado para mostrar a diferença entre a transmissão analógica e a digital.
Além disso, o grupo equipou um ônibus com um aparelho de TV analógico e um digital, para mostrar a capacidade da transmissão móvel do sistema. O veículo circulou por ruas do Rio. Durante o percurso feito pela reportagem, o aparelho analógico perdia o sinal em vários momentos, já o digital funcionou perfeitamente.
Na palestra dada durante a demonstração, engenheiros do grupo SET/Abert afirmavam que o padrão japonês e o europeu serviriam para os objetivos das emissoras brasileiras.
Preocupados com a repercussão dessa demonstração, um grupo de executivos norte-americanos ligados ao padrão ATSC (o sistema de TV digital dos EUA) esteve há duas semanas no Brasil. Eles deram entrevista em São Paulo e reuniram-se com autoridades do governo federal em Brasília.

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