Globo aposta em novela de época
PUBLICAÇÃO
domingo, 09 de maio de 1999
Fernando Miragaya TV Press 
A queda vertiginosa das médias de audiência, o sucesso recente da minissérie Chiquinha Gonzaga e pesquisas de opinião levaram a Globo a apostar alto. Depois de oito anos, a emissora volta a produzir uma novela de época, com Força de um Desejo - a última foi a fracassada Salomé, em 1991. Na nova novela de Gilberto Braga e Alcides Nogueira, que estréia hoje, a emissora está investindo cerca de R$ 16 milhões - R$ 90 mil por capítulo. Ao mesmo tempo, traz ao horário das seis um elenco de primeira, encabeçado por Malu Mader, Fábio Assunção, Selton Mello, Paulo Betti e Reginaldo Faria. Acho que pode dar uma sacudida no horário, já que o público gosta do gênero, torce o autor Gilberto Braga.
Apesar dos altos custos e da mínima possibilidade de merchandising, a Globo espera bom retorno de Força de um Desejo. Os objetivos da emissora com a novela não se resumem apenas à audiência. Uma reedição do sucesso de Escrava Isaura não seria mal. Afinal, a novela que projetou Gilberto como grande novelista em 1976 tem boa repercussão até hoje. Tanto que é o produto mais negociado da empresa no exterior - mais de 100 países já compraram a produção. Com o dólar lá em cima, é uma boa hora para reforçar o caixa. Como atrativo a mais, o fato de Força de um Desejo, como será exibida às seis, não ter o apelo sexual comum em outras novelas, o que facilita a negociação com países onde a temática do sexo não é tratada tão abertamente como no Brasil. É uma história romântica, com visual bonito e bem-cuidado, promete Alcides Nogueira, criador da trama.
Só que o visual requintado da novela tem seu preço. Somente as externas na gravação do primeiro capítulo, feitas em Lumiar, região serrana do Rio de Janeiro, envolveram mais de 100 profissionais, outros 100 figurantes, 44 mulas, 15 cavalos e 23 veículos. Foram gastos mais de R$ 2 mil por dia em cachê e cerca de R$ 18 mil em diárias de hospedagem. Isso sem contar gastos extras, alimentação e transporte. Além disso, equipe e elenco acordavam todo dia às seis horas da manhã, encaravam estradas de terra e mais 800 metros de percurso a pé. Ninguém imagina o trabalho que dá fazer uma novela de época, desabafa o diretor Mauro Mendonça Filho.
As externas são um problema para o gênero. As locações são limitadas, já que nem toda rua ou praia pode ser utilizada. No Rio de Janeiro, por exemplo, o Passeio Público, localizado no Centro da cidade, era o cenário ideal para muitas cenas, mas foi descartado devido à localização movimentada, o que prejudica a privacidade da produção. As tomadas de fazendas foram feitas em Lumiar, Magé e Três Rios, na Região Serrana Fluminense. Cenas de praia só na pouco movimentada e quase rústica Grumari, Zona Oeste carioca. Takes de trem foram parar em uma estação desativada em Guapimirim, também na Serra. Para sequências em salões luxuosos e aristocráticos, só utilizando o Palácio Guanabara, sede do governo do Estado, o salão nobre do Fluminense Football Club, ambos no bairro de Laranjeiras, na Zona Sul do Rio, ou o Teatro Municipal de Niterói.
Não é novidade que o gênero requer um trabalho de pesquisa intenso, principalmente por parte da direção de arte, cenografia e figurino. Mas montar e vestir elenco e figurantes também é desgastante. Cada figurante de Força de um Desejo, por exemplo, leva no mínimo meia hora para estar maquiado, penteado e vestido. Só Malu Mader, que protagoniza a cortesã Ester, fica mais de uma hora entregue aos cabeleireiros e maquiadores. Para agilizar o trabalho, o número de profissionais foi dobrado - agora são oito cabeleireiros e oito maquiadores.
Antes de encarar o século passado, porém, atores, diretores e produtores fizeram uma espécie de workshop. Durante um mês eles tiveram aulas de expressão corporal, voz, entre outras, direcionadas para a época retratada. Além disso, todos assistiram a filmes ambientados no século passado, além de palestras de historiadores. O objetivo era tentar entender e absorver o Século XIX. É um universo bem diferente, comenta Malu Mader. Será uma novela muito rica, aposta Gilberto Braga.


