Salvador, 23 (AE) - A globalização não assusta a cultura brasileira, que tem procurado abrir seus caminhos, mantendo regionalismos, como ocorre em vários países do mundo que também estão preocupados com a perda da identidade nacional. A tese foi o ponto de convergência do seminário Cultura e Globalização: Novos Desafios para a Televisão e o Cinema Brasileiro, ontem (22), em Salvador, sob o patrocínio do Ministério da Cultura.
O ministro Francisco Weffort afirmou que o Brasil não pode abrir mão dos avanços tecnológicos no campo da comunicação em nome de um nacionalismo cultural. "Tenho menos medo de perder a identidade cultural do que de perder a oportunidade que a globalização nos dá para desenvolvermos os meios de comunicação", disse para uma mesa de debate formada pelo vice-presidente das Organizações Globo, José Roberto Marinho, o professor da PUC Gabriel Priolli Neto, o secretário-executivo do Ministério das Comunicações, Juarez Quadros, o diretor de marketing da TV Cultura, Renato Bulcão, e outros papas do setor.
Weffort salientou, contudo, que o Estado e a iniciativa privada precisam se unir para fomentar cada vez mais as as manifestações artísticas, criando novas atividades culturais, para garantir trabalho e mercado aos artistas."Mesmo porque ainda estamos formando uma identidade cultural brasileira", sustentou. O ministro propôs uma "terceira via" para o desenvolvimento da cultura nacional, um espécie de meio termo entre o modelo norte-americano regido pelas regras de mercado e o francês, cujo Estado apóia maciçamente as manifestações artísticas. "Cultura tem de ser matéria de Estado, mas é também mercado competitivo", disse.
Na visão de Weffort, o cinema, por exemplo, deveria se unir à televisão e ambos usar suas qualidades para fortalecer a cultura regional. João Roberto Marinho concordou, salientando o grande papel da televisão na vida cultural do Brasil. "Somos uma nação majoritariamente de excluídos, que só encontra algum tipo de diversão na televisão e no rádio; portanto, é preciso criar fórmulas e mecanismos para estimular cada vez mais a produção cultural e torná-la popular através da TV", disse, numa referência ao projeto de lei sobre as telecomunicações que está sendo elaborado pelo governo. "A lei não pode criar barreiras para restringir, mas deve, sim, fomentar as empresas que investem na produção cultural brasileira."
Ao reforçar o caráter amplo e até totalizador da televisão, o professor Priolli Neto argumentou ser necessário regionalizar cada vez mais esse meio de comunicação, fixando porcentuais mínimos para produções locais. O objetivo seria construir a identidade nacional defendida por Weffort e equilibrar mais a produção e consumo (por meio de incentivos fiscais ou até investimento direto do Estado) da televisão brasileira, concentrada atualmente na região sudeste.
Priolli Neto também é favorável à entrada do capital estrangeiro nos meios de comunicação. "Desde que o controle das empresas seja de brasileiros ou grupos nacionais e proibindo-se a geração de programação a partir do exterior."
O papel da TVE na produção e veiculação de programas de qualidade e identificados com a cultura nacional, foi destacado no seminário por Renato Bulcão, diretor de Marketing da emissora
que está completando 30 anos. "Conseguimos viabilizar uma rede pública nacional, respeitando a diversidade regional". Além de produzir 34 filmes para cinema ao longo dessas três décadas, a TV Cultura se orgulha do reconhecimento internacional dos seus programas. O Castelo Rá-Tim-Bum, por exemplo, ganhou vários prêmios de melhor programa infantil.

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