No filme baseado na novela da nova-iorquina  "Meg Wolitzer", publicado em 2003, Close interpreta Joan, a devotada esposa de Joe Castleman (Jonathan Pryce), aclamado escritor prestes a receber o Nobel de Literatura em 1992. Junto com o filho David (Max Irons, filho de Jeremy), que sonha tornar-se escritor um dia, com a aprovação do pai, a família embarca para Estocolmo a fim de receber a honraria máxima na vida de qualquer literato e participar das formalidades de praxe. Fica desde logo evidente que algo não vai bem naquele núcleo familiar, e que frustrações e ressentimentos permeiam a relação do casal. Através de flashbacks, o espectador é informado de que Joan foi um dia escritora, inclusive melhor que Joe, mas por ser mulher não teve uma oportunidade no meio literário, tendo que se conformar com o papel de "boa esposa".

Em 'A Esposa', Glenn Close presenteia o público com uma das melhores interpretações de sua galeria de personagens fortes
Em 'A Esposa', Glenn Close presenteia o público com uma das melhores interpretações de sua galeria de personagens fortes | Foto: Reprodução



Com base em roteiro de Jane Anderson, o diretor sueco Björn Runge (estreante em língua inglesa) desenvolve a narrativa com toques de mistério, e para manter o público interessado e intrigado o suficiente ele fornece somente as peças necessárias para a resolução do quebra cabeças. Essa obscuridade parcial guia o espectador pelas fendas de um casamento tóxico que, acidentalmente, inspirou e determinou o conjunto da premiada obra literária de Castleman.

Ainda nesses tempos correntes (alguma dúvida a respeito...? ) a expressão "atrás de todo grande homem existe uma grande mulher" figura bem alto na lista de incorreções políticas. Em "A Esposa", cuja história transcorre mais de duas décadas antes dos movimentos  #Me Too e #Time's Up , a famosa e malfadada frase adota uma literalidade irrefreável, sufocante mesmo. Mas um dos aspectos mais transcendentais do discurso do filme, obviamente feminista, é que não vitimiza o personagem de Joan Castleman. Fica claro que um dia seu jovem talento foi obscurecido pelo sexismo que Joan viveu nas décadas de 1950 e 60 como aspirante a escritora, e como os preconceitos de gênero e o ego machista terminaram por aniquilar seus sonhos. Ao mesmo tempo, porém, o filme apresenta o contexto necessário para se entender a responsabilidade que ela também teve quanto à sua carreira.

Este aspecto fica tangível nas cenas que Close compartilha com o personagem de Christian Slater, um jornalista investigativo interessado em escrever a biografia (não autorizada) do marido escritor apontado para o Nobel. A partir de suas desconfianças, ele vê Joan como abundante fonte de informação para seu livro e segue no mesmo avião para Estocolmo, onde passa a assediá-la a fim de extrair material para a biografia. Ela, ainda no papel de "boa esposa", se defende elegantemente durante o cerco, mas as emoções começam a se avolumar e podem eventualmente provocar uma catarse, que afinal se sobrepõe às muitas sutilezas que até então a narrativa vinha administrando, inclusive com doses calculadas de humor (negro) como elemento atenuante do peso dramatúrgico. Em seus melhores momentos - e que não são poucos - o filme expõe com ironia e acidez o cinismo e a hipocrisia do meio literário e dos protagonistas. Em outros, o diretor Björn Runge apela para a crueldade dos personagens e para algumas explicações mais ou menos óbvias.

Glenn Close presenteia o público com uma das melhores interpretações de sua galeria de personagens fortes, neste filme onde pontificam grandes atuações. Tanto Jonathan Price - no papel de falso macho alfa dominante, Don Juan extrovertido e predador disfarçado em fragilidade fake - como Close, ama e senhora de muita classe, dona de muita finura em olhares furtivos, seus gestos, silêncios e reações físicas, ambos elevam este espetáculo  muitos degraus acima da mera linearidade mais tangível. Estas duas personalidades tão contrastantes e sempre tão conectadas em seu bem guardado segredo gravitam diante dos olhos do publico sempre de maneira absorvente.

A este mesmo público, afinal, cabe decidir se "A Esposa" deve ser visto como fábula moral, relato de vingança inconsciente ou uma farsa agridoce sobre a perversidade da condição humana.

mockup