Glass cria alternância de tensão e melancolia
A trilha criada por Philip Glass para ''Drácula'' evoca uma atmosfera característica do século XIX. Espera-se que o nível interpretativo na versão com instrumentos amplificados e teclados eletrônicos confira alta qualidade ao desempenho, como se ouve na versão gravada pelo Quarteto Kronos, no selo norte-americano Nonesuch. A partitura original, certamente próxima da tradição, acumula todos os recursos de três séculos de escritura camerística para cordas. O resultado final direciona tanto para a obra dos compositores tchecos Janacek e Smetana, como também se assemelha à expressão do romantismo expressionista de ''Verklarte Nacht'' (''Noite Transfigurada''), obra escrita por Shoenberg quando jovem, na versão para sexteto de cordas. Na generalidade, a partitura expressa um clima de declinante melancolia, de visível desconforto e tosca quando estiliza os rabecões folclóricos dos conjuntos musicais da época. Seguem-se sugestões de valsa de fino recorte, e que trazem a presença doentia do personagem, cuja condição desperta tanto fascínio e compaixão. A trilha remete ao bom humor quando envolve personagens secundários e acentua as segundas intenções do protagonista. Nos temas finais concentram-se o melhor da música quando a ansiedade e tensão dramática se adensam através da reiteração de acordes que se sucedem repetidamente, em rápida sobreposição de escalas ascendentes e descendentes. O impacto causado pela repentina interrupção dessa passagem conduz à tranquilidade. (I.C.)





