Grandiosa, confusa, antiga e moderna ao mesmo tempo. A 55ª Mostra Internacional de Arte Cinematográfica de Veneza faz o que pode para continuar brigando pelo segundo posto com o Festival de Berlim, já que não se discute a tranquila hegemonia de Cannes. Nos últimos 20 anos foram cinco curadores, tentando dar fôlego e restituir prestígio ao evento: dois diretores de cinema (Carlo Lizzani e Gillo Pontecorvo), dois críticos (Rondi e Biraghi) e um organizador ‘‘puro’’, Felice Laudadio, hoje no comando da área cinematográfica da Biennale, máxima entidade cultural veneziana presidida por Paolo Barata. Nessas duas décadas, os pontos nevrálgicos foram o crescimento sem muito planejamento e uma situação financeira consequentemente delicada.
Nos últimos anos, uma série de readequações vem buscando racionalizar os espaços no Lido. Surgiu uma nova e ampla sala, e a construção imediata de mais uma foi anunciada durante a solenidade de abertura. Este ano, depois das safras ‘‘socialistas’’ da era Gillo Pontecorvo, notório comunista à antiga, Hollywood está de volta a Via Lungomare, o correspondente veneziano da Croisette de Cannes. Felice Laudadio garantiu e está cumprindo a promessa de trazer à Mostra um vasto e variado leque de celebridades, de Robert DeNiro
a Jim Carrey, passando pela habitual ausência-presença de Woody Allen: seu último filme, ‘‘Celebrity’’, terá estréia mundial, mas sem o diretor.
Mas se o aspecto mundano está sensivelmente incrementado, por outro lado o festival resolveu manter um sólido compromisso com o setor independente e até flertar com o alternativo. Outras características da edição deste ano: em exibição menos da metade- 92- de filmes presentes aqui ano passado - 220 - e a forte delegação da emergente produção italiana. São 14 longas-metragens, com decisiva participação televisiva através da RAI.
A Mostra competitiva já vai adiantada, o que não significa que anda lá muito bem das pernas. A qualidade duvidosa de alguns títulos vistos nos primeiros dias de certa forma compromete os critérios dos responsáveis pela curadoria, isto é, da equipe de seis pessoas encarregada de fazer a seleção. E um fato ocorrido à última hora deve dar muito o que falar.
Um dos selecionados, o norte-americano dirigido por Mike Figgis, não ficou pronto a tempo e foi substituído dia 28 de agosto por mais um filme italiano, ‘‘Il Giardino dell’Eden’’, de Alessandro D’Alastri, nada mais nada menos que a vida de Cristo numa visão, digamos, pós-carismática, mas nada cinematograficamente relevante. Um quase-desastre.
O primeiro concorrente francês, ‘‘Voleur de Vie’’, de Yves Angelo, não conseguiu evitar o tédio profundo durante a exibição para a crítica, inquieta com os descaminhos e desdobramentos pseudo-literários da história de duas irmãs - Emmanuelle Béart e Sandrine Bonnaire, charme, beleza e talento desperdiçados. Baseado livremente em romance de Steinunn Sigurdardottir, escritor nórdico pouco conhecido mesmo na Europa, ‘‘Voleur de Vie’’ (Ladrão de Vida) é um desses complexos retratos da alma feminina que, quando em mãos inábeis, deixam de render aquilo que prometiam.
Alda (Béart), professora de literatura, bela, independente, solitária, incapaz de amar a não ser pela entrega física a um considerável número de homens, os quais leva para casa, um antigo presbitério num ponto elevado da costa escarpada. Sob o mesmo teto habita outra espécie de solidão, a da irmã Olga (Bonnaire), artesã, menos bela do que a irmã, fechada para qualquer possibilidade de relacionamento.
Reclusas em si mesmas, abrem-se apenas em família - há uma terceira mulher neste cenário, a pós-adolescente Sigga, filha de Olga. O ladrão a que se refere o filme é o tempo, que vai moldando, alterando e finalmente tirando as existências. Durante a coletiva, Sandrine Bonnaire disse que pensou em ‘‘Gritos e Sussurros’’ quando preparava seu personagem para a morte, enfrentando atrozes dores físicas e espirituais.
Na serenidade e sabedoria de seus 80 anos recém-completados, Ingmar Bergman com certeza vai perdoar esta permissiva leviandade da excelente atriz francesa, proferida em momento de devaneio provocado pela estonteante visão do Adriático neste encerramento de verão.
Se as almas são difusas em ‘‘Ladrão de Vida’’, o único alemão em concurso, ‘‘Lola Rennt’’ (Lola Corre, título literal) é despudoradamente sem alma. Dirigido pelo ‘‘alternativo’’ Tom Tykwer, considerado por aqui um dos mais inovadores (!?) cineastas alemães, dá em 81 minutos três hipóteses na vida da personagem-título. Na verdade, Lola tem apenas 20 minutos para vasculhar Berlim, arranjar 100 mil marcos e tirar o namorado Manni da maior enrascada. As três versões são dadas aos espectador de forma asséptica, mecânica e videoclipística.
Lola (a atriz ‘‘física’’ Francka Potente, por tudo merecedora do nome) corre todo o tempo pelas ruas da cidade, como uma campeã de maratona. A opção primeira é modificada pela segunda que modifica a terceira, numa solução que não merecia nada além de um curta-metragem. Aliás, já se viu em Gramado mesmo coisas bem mais inspiradas, melhor resolvidas e mais curtas - vide o inovador e até o momento imbatível ‘‘Ilha das Flores’’, de Jorge Furtado.
O primeiro norte-americano em julgamento exibido foi ‘‘Rounders’’, de John Dahl, um divertido ainda que parcialmente sombrio mergulho no submundo dos jogadores de pôquer de Nova York. Matt Dillon, no momento uma espécie de Di Caprio com tutano, interpreta o jovem jogador já irremediavelmente inoculado pelo vírus do pano verde. Estudante de Direito, bem que faz força, mas a tentação é mais forte que uma futura carreira convencional e mais atraente do que a colega de escola com quem vive.
Ao contrário de estudos mais sombrios já levados ao cinema - ‘‘O Jogador’’, ‘‘A Mesa do Diabo’’ - este não está muito preocupado com crimes e castigos à maneira expiatória de Dostoiéviski. O que interessa a diretor Dhal é demonstrar que a modalidade do pôquer é para pessoas realmente inteligentes, que fazem disso uma espécie de arte. Com direito a queixas e reclamações das ligas de combate aos vícios em geral.
Por enquanto, as melhores opções ficaram por conta das paralelas, fora de concurso. Entre elas o melhor Spike Lee em anos, o cinema sempre elegante e competente de James Ivory e o novo dos irmãos Taviani.

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