Glamour e história
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 15 de janeiro de 2003
Ana Clara Garmendia<br> Equipe da Folha 
Nova York Quando se fala em moda o assunto sempre é ambíguo. Há quem compare o universo das roupas com algo fútil e descartável. Mas se alguém perder um pouco de seu tempo para analisar esse mundo tão cheio de charme, holofotes e vaidades vai ter uma agradável surpresa: a moda está tão interligada com os fatos cotidianos quanto as artes. Uma exposição no Museu Metropolitam de Nova York está mostrando as roupas que o Duque e a Duquesa de Windsor e outras celebridades usavam na década de 30 e chamando a atenção pelo teor histórico que cada traje contém.
São na maioria vestidos usados pelas coquetes da época, que faziam de suas aparições públicas verdadeiros espetáculos. Uma delas foi tão paparicada e elegante que chegou a ser citada por Cole Porter em uma de suas canções como a mulher mais bem vestida da cidade.
Uma das grandes homenageadas da exposição é a duquesa de Windsor. Sua relação com os modelos que usava foi motivo de algumas declarações bombásticas para a época. Como ela lançava moda, cada vez que aparecia com um modelo criado por Madeleine Vionnet, Jeanne Lanvin, Balenciaga, Gabrielle Chanel, Elsa Schiaparelli (esta uma artista surrealista) ou Jean Patou, e não era nem um protótipo de beleza, certa vez disse: ''Eu não sou uma mulher bonita. Então o melhor que posso fazer é me vestir melhor que todo mundo''. Uma frase célebre que exemplifica o fascínio que as mulheres sempre tiveram pelas roupas.
Alguns detalhes na mostra exemplificam o poder que a duquesa exercia sobre o imaginário feminino. Seu vestido de casamento foi o modelo mais copiado da história da moda daquela época. Foram mais de 250 versões para um traje bege que ela usou para receber o duque como marido. Somente a Lord & Taylor, um magazine nova-iorquino famoso, chegou a vender 1695 cópias da roupa. Exemplos de uma época de glamour que pouco a pouco iria se desfazer com a chegada da Segunda Guerra Mundial.
Ao passar os olhos pelos trajes ali expostos (que também podem ser vistos no site do Metropolitam www.metropolitam.com) a iminência da grande guerra começa a ser visível nas criações de Chanel e Schiaparelli. O rosa das primeiras criações, e a resistência ao modernismo apresentados em modelos românticos do início da década de 30, começam a dar lugar a criações mais sóbrias, trajes que traduziam o espírito catastrófico que estava pairando no ar.
Pássaros negros aplicados em vestidos de tule preto anunciam um tempo onde ficaria muito crítico para os criadores da época. Um tempo onde a criatividade deu passagem triunfal ao momento de terror vivido pela população. A peste da guerra ficou bem representada por quem só estava acostumado a mostrar beleza e riqueza.
Neste contexto explodem aos olhos as criações delirantes da surrealista Elsa Schiaparelli. Em espécie de simbiose com Giorgio de Chirico e Salvador Dali (que tem um quadro seu na exposição) a estilista mostrou todos os seus devaneios. Até hoje suas roupas incitam interrogações em quem os observa. Eram peças monumentais para uma profissional que deveria apresentar roupas conservadoras.
A deterioração da civilização chegou feroz num lugar onde até então só era mostrada a beleza do mundo. Já não dava mais para os criadores fazerem vistas grossas aos tempos turbulentos. Foi então que em 1939 a grande Chanel fechou seu atelier com a seguinte declaração ''estes não são tempos para moda''. Fechamento que permaneceria até 1953, quando a grande dama recomeçou a trabalhar. Foram 14 anos de um silêncio respeitoso e que traduz bem como a moda sempre esteve caminhando junto com tudo que acontece no mundo.
A parte dedicada ao Duque de Windsor é menos interessante, mas importante para se rever alguns detalhes importantes sobre a vestimenta masculina. Ao ver os trajes usados naquela época, uma triste constatação: os homens perderam glamour com o passar dos anos.
Antigamente se preocupavam mais com o que vestiriam, em todas as ocasiões importantes de suas vidas. Seus trajes eram mais bem cortados e mostravam uma vaidade que hoje ficou guardada nos livros de história. Fraques, saias, calças curtas para momentos de descontração já não são vestimentas adotadas por nossos homens. Um retrocesso que mostra que o machismo tornou os homens um pouco sem brilho neste século 21.
Quem for até Nova York não pode deixar de reservar um tempo para ver esta exposição. Fica até abril de 2003.


