DivulgaçãoCarmen Mayrink Veiga: ‘‘Explico desde o
toalete até a roupa que você vai usar numa festa’’GLAMOUR E DELÍCIAS DE COCO
Carmen Mayrink Veiga lança ‘‘ABC de Carmen’’ hoje, em Curitiba
Zeca Corrêa Leite
Asociedade curitibana em peso vai bater cartão, hoje, na Simões de Assis Galeria de Arte. O casarão entronizado em meio ao verde do gramado, no Batel, será todo luzes para receber Carmen Mayrink Veiga, símbolo do glamour e ainda hoje soberana em seu posto de nobreza, apesar dos percalços que a vida lhe trouxe. Ela estará autografando ‘‘ABC de Carmen’’, publicado pela Editora Globo.
As 248 páginas do livro são uma mistura de variados assuntos, exatamente como está impresso na capa: ‘‘estilo, culinária, receitas pessoais e a arte de receber’’. O abecedário reúne desde receita de mousse de abacaxi ao estilista Yves Saint Laurent, manjuba, black tie e Deus. ‘‘Tem dia em que você levanta com as idéias atrapalhadas, está tudo assim meio aborrecido. Não esquento: Deus pega na minha mão e me leva.’’
Satisfeita com o livro, disse para a Folha2 que o sucesso é absoluto. ‘‘Ele não é só para mulher. Tem muito homem testando minhas receitas’’, comentou orgulhosa. A seguir dá um conselho ao repórter: ‘‘Não faça ‘Delícia-de-coco’ porque você vai ter que ficar horas olhando para ela, de minuto a minuto’’. No livro encoraja as leitoras: ‘‘Não é um doce caro, apenas trabalhoso. Tente, porque vale a pena’’.
Em matéria de comida, tudo que está no ‘‘ABC’’ foi preparado por Carmen. São receitas que vieram da mãe, outras de restaurantes ao redor do mundo e aquelas criadas por ela mesma. Gostaria de publicar um risoto de um restaurante londrino, mas todas as vezes que tentou fazê-lo não ficou bom. Naturalmente não entrou na lista. ‘‘Como passar para os outros aquilo que não consegui fazer?’’
O volume não se ocupa somente de culinária. Suas páginas abrigam outros assuntos, escritos num estilo coloquial, como se fosse uma conversa. Esse clima é intencional, segundo Carmen. Seria como uma espécie de convivência entre o leitor e a autora. ‘‘Explico desde o toalete até a roupa que você vai usar numa festa.’’ Um toque para as donas de casa: nunca deixem o sabonete molhado; a impressão que ele cria de desmazelo é fatal.
Apressadas impressões sobre a sra. Mayrink Veiga, a partir desses cuidados, como o do sabonete, podem levar a injustiças. Ela não é uma patroa chata. Palmira, sua primeira cozinheira que ‘‘tinha unhas de faquir e dançava na escola de samba’’, trabalhou em sua casa durante 18 anos. ‘‘Perpétua está comigo há 22 anos. Os empregados que estão comigo são do tempo em que casei’’, afirma.
Nestes 40 e tantos anos muita coisa mudou, o mundo já não é tão inocente e se foi cunhado o título de ‘‘anos dourados’’ para a década de 50 é porque deixou saudade pairando no ar. Mesmo com o fim das convenções e a mudança nos costumes, ainda assim o charme e o glamour persistem. ‘‘A elegância sempre existirá para quem quiser cultivá-la’’, afirma Carmen.
Sua filha, sua nora e amigas da mesma geração recebem tão bem e com o mesmo requinte como ela recebia numa época extinta. A educação vem de berço; se têm o exemplo em casa, farão o mesmo na vida adulta, e passarão a lição para os filhos. ‘‘As coisas boas são eternas e tudo aquilo que você aprende será usado em sua vida. O dia em que não aprendo algo novo, ele praticamente não existiu’’, diz. E sentencia: ‘‘O dia que você fica descansando na beleza, morreu’’.
Quando decidiu-se em arranjar um trabalho, Carmen espalhou a novidade na roda social carioca. Choveram convites, mas o que parecia improvável aconteceu. A ‘‘locomotiva do jet-set’’, o símbolo do glamour carioca e internacional acabou optando justamente por um jornal cuja fama era a popularidade: ‘‘O Dia’’.
Ex-diário sanguinário, sofreu mudança radical, mas não deixou de ser lido pelas faixas mais simples da população. É o campeão de vendas nas bancas do Rio de Janeiro. Foi ali que Carmen colocou sua assinatura, para falar de sofisticação, etiqueta e cozinha. Quando deu por si, havia se transformado numa das colunistas mais populares da cidade.
‘‘Sempre fui popular na alta sociedade, mas com a coluna no ‘O Dia’, minha popularidade triplicou’’, disse numa entrevista. A escolha tem tudo a ver com sua maneira de encarar a vida e ajudar as pessoas. ‘‘Achei que seria muito mais útil estar ali que em outro jornal. O retorno é maravilhoso; quando saio às ruas todo mundo vem falar comigo.’’
As perguntas giram em torno de moda, culinária e etiqueta, e as consulentes são quase todas da periferia. Homens também escrevem, porém em menor número. A nova atividade abriu as portas a um mundo de certa forma desconhecido pela colunista. ‘‘Mesmo as coisas que não são maravilhosas são válidas’’, comenta.
Antenada com o mundo, Carmen lê vários jornais todos os dias. Começa pelas notícias internacionais, depois passa para os cadernos de política (‘‘a política me interessa porque tenho filhos e netos; tenho que saber para onde vamos’’), por fim os suplementos de cultura e as colunas sociais. Não deixa uma coluna de fora. Por semana, devora seis revistas, incluindo aí também as estrangeiras.
‘‘Política é cheia de surpresas’’, avisa. Por isso mesmo não se pode dizer com antecipação que este ou aquele já ganhou. Afirma que ainda não decidiu em quem vai votar; está pesando os prós e contras. Qual o maior problema que o Brasil enfrenta? ‘‘O desemprego. É um desastre o que está acontecendo’’, responde.
Para ela, o real é a moeda que trouxe estabilidade ao País, mas suas faces são absolutamente contrárias. ‘‘A dona de casa não precisa mais sair perguntando quanto custa o pé de alface, para achar o mais barato, nem ter que estocar comida porque o preço dos produtos não sobe todo dia. Em compensação, temos aí o desemprego. É um pesadelo que não pode continuar.’’
•ABC de Carmen - de Carmen Mayrink Veiga. A autora aborda estilo, culinária, receitas pessoais e a arte de receber. Sessão de autógrafos hoje, às 19h30, na Simões de Assis Galeria de Arte, Alameda D. Pedro II, 155. Preço do livro: R$ 27,00.

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