Afastada das novelas desde 1993, quando interpretou a apaixonada Linda Inês de ‘‘Fera Ferida’’, Giulia Gam volta a contracenar com Edson Celulari (o Flamel daquela mesma novela) na minissérie ‘‘Dona Flor e Seus Dois Maridos’’, de Jorge Amado, adaptada para a tevê por Dias Gomes. Na história que vai ao ar entre novembro e dezembro deste ano, na Globo, Giulia terá Marco Nanini no papel do outro marido. E diz que está muito feliz com isso:
‘‘O primeiro autógrafo que pedi na vida foi ao Nanini. E o Celulari foi o meu grande par romântico nas novelas ‘Que Rei Sou Eu?’ e ‘Fera Ferida’. Eu não poderia ter dois maridos mais perfeitos’’ - brinca a atriz, que precisou escurecer e cachear os cabelos e tomar sol para ficar morena a fim de encarar o desafio de se sair tão bem no papel de Dona Flor na tevê como Sônia Braga no cinema.
O diretor Mauro Mendonça Filho diz que a idéia é atualizar ao máximo a obra de Jorge Amado (cuja adaptação para o cinema teve a participação de seu pai, o ator Mauro Mendonça). Giulia Gam disse que, quando recebeu o convite para ser a protagonista da minissérie, ficou surpresa e orgulhosa, mas pediu um tempo para decidir. ‘‘Tenho um certo medo da projeção que a tevê lhe dᒒ, explicou. ‘‘Quando se vira protagonista de um programa da Globo, parece que todos os olhos do Brasil se voltam para voc꒒.
Você teve medo de uma comparação com a Dona Flor de Sônia Braga?
Giulia Gam - Muita gente ainda confunde Dona Flor com Sônia Braga. Ela marcou e foi muito marcada pela obra de Jorge Amado. Só depois do início das filmagens consegui me libertar da lembrança da Sônia e construir a minha imagem sobre Dona Flor. Tentei apagar da memória cenas que me marcaram no filme.
Como tem sido a reação dos baianos à sua escolha?
Giulia Gam - Eles estão achando ótimo, não têm nenhum preconceito. A Bahia é mestiça, e a obra de Jorge Amado ressalta exatamente isso. Conheci Jorge Amado e ele me disse para não me preocupar, que eu tinha a doçura da Dona Flor.
O que mais te atrai na história do livro?
Giulia Gam - Foi uma coisa engraçada que a Zélia Gattai, mulher do Jorge Amado, me contou. Ela disse que os personagens dos livros de Amado ganham vida e passam a habitar a casa deles em Salvador. Quando estava escrevendo ‘‘Dona Flor’’, Amado queria que a personagem principal morressse, o que seria o fim clássico de um menage à trois . Mas a personagem resistia, não queria morrer. Um dia, Amado acordou no meio da madrugada e gritou para Zélia: ‘‘Aquela sua amiga! Aquela sua amiga!’’ E Zélia, sonolenta: ‘‘Que amiga?’’ Daí Amado explicou: ‘‘Aquela descarada da Dona Flor! Transou com o Vadinho e decidiu ficar com os dois!’’ Eu gosto dessa coisa lúdica e feliz que o livro e a Bahia têm.
Você teve de ‘‘reestruturar’’ seu corpo para compor a personagem fisicamente?
Giulia Gam - Escureci o cabelo, cortei cacheado, já que meu cabelo é muito liso. tomei sol para ficar mais morena...quando cheguei aqui, parecia uma extraterrestre, de tão branca (risos) . Também fiz um curso para reestruturar minha postura. Estava acostumada a interpretar mocinhas, que são mais simétricas. A Dona Flor é toda sinuosa.
Você tem receio da comparação entre o filme e a minissérie?
Giulia Gam - Nós temos consciência de que precisaremos conquistar um público que já tem uma referência muito forte. Foi difícil nos libertarmos da imagem do filme, mas conseguimos criar nosso universo. A equipe da minissérie tomou todo o cuidado para não reproduzir e sim tentar renovar o carisma do livro, mesmo porque se trata de outra mídia, com outro tamanho, para outra geração. Já estamos preparados para a comparação.

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