A música brasileira tem uma série de artistas que tornam diluida a fronteira entre o erudito e o popular. Um dos exemplos mais constantes e consistentes é Egberto Gismonti.
Lançado no mercado internacional, ''Saudações'', último álbum do multi-instrumentista, é um disco duplo, no qual o segundo CD traz uma série de duetos de violões dele com o filho, o violonista Alexandre Gismonti.
Privilegiando as proezas de velocidade e sonoridades ásperas e duras, eles revisitam, com virtuosidade, standards de Egberto, como ''Palhaço'' e ''Dança dos Escravos''.
Se você quiser algum tipo de classificação, quando toca com o filho, ele faz música popular instrumental. Contudo, se tiver que merecer alguma etiqueta, ''Sertões Veredas - Tributo à Miscigenação'', a obra ambiciosa e sofisticada que toma todo o primeiro disco do álbum, possivelmente tem que ser chamada de música erudita.
Trata-se de uma vasta suíte em sete movimentos, com 70 minutos de duração, defendida com empenho e afinação pela Camerata Romeu, orquestra de cordas cubana integrada exclusivamente por mulheres e dirigida pela maestrina Zenaida Romeu.
Nela, Gismonti toma o universo de Guimarães Rosa como ponto de partida, e cruza, com seu idioma bastante peculiar, influências díspares, que vão desde as músicas folclóricas das diversas partes do Brasil aos universos de Vivaldi, Bach, Mozart, Beethoven, Villa-Lobos e Stravinski.
São mundos sonoros dentro dos quais o autor se move com desenvoltura e facilidade, e o diálogo entre eles acaba soando, portanto, natural e espontâneo, sem nada de forçado. O resultado é uma peça exuberante e contemporânea no melhor sentido do termo, e mais do que digna de figurar no repertório das orquestras brasileiras.
- SAUDAÇÕES
Artista - Egberto Gismonti
Gravadora - ECM
Quanto - R$ 120, em média (importado)

mockup