No rastro do ‘‘ah, eu tô maluco’’ - grito despretensioso do camelô Jorge da Rocha num baile funk do subúrbio carioca e que se espalhou pelo País -, outras expressões e gírias surgidas nas áreas mais pobres do Rio, notadamente em clubes e favelas das zonas norte e oeste, podem ser ouvidas por toda a cidade. Algumas causam estranheza e soam esquisitas. Para o filólogo Silvio Elia, ex-professor de linguística da Universidade Federal Fluminense (UFF), essa linguagem tem vida curta e significa um código secreto entre grupos segregados. ‘‘Ela é cifrada e metafórica e nasce dentro de um estado de espírito’’.
Os DJs (disque-jóqueis) que atuam em bailes funk do Rio explicam que não há uma regra para que esses termos caiam no gosto popular. ‘‘Tem muita gente que só se entende usando gírias’’, diz o DJ Rafael Antonio, do Morro do Turano, na Tijuca, zona norte. Ele afirma que a rota dessas expressões começa nos bailes e segue pelo Maracanã e praias da zona sul do Rio. ‘‘Tudo no tijolinho do mocotó’’, conclui, tentando dizer que tudo acontece com naturalidade.
O filólogo Adriano da Gama Khoury acredita que só as gírias expressivas podem ter vida longa. Ele afirma que o verbo alemanzar - inventado por funkeiros para identificar um novo ‘‘alemão’’, ou seja, um novo inimigo - logo cairá em desuso. ‘‘Ali há uma deformação, o certo seria alemanizar’’. Khoury defende que a gíria, ‘‘em princípio’’, é temporária e mais ou menos localizada. ‘‘Mas nunca podemos prever com exatidão o que acontecerá com esses termos’’.
O autor de palavras e expressões, esporádicas ou não, muitas vezes fica no anonimato e sequer percebe o sucesso daquilo que pronunciou. Jorge da Rocha, de 22 anos, é uma exceção. Depois do ‘‘ah, eu tô maluco’’, ele concedeu inúmeras entrevistas e foi convidado para dezenas de shows no Estado do Rio. ‘‘Estou vivendo um choque de monstro’’, ele mesmo define. Na opinião de Khoury, ‘‘choque de monstro’’ tem força expressiva e deve permanecer um bom tempo entre os cariocas.

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