São Paulo - Está sendo lançado um livro que embora tenha sido planejado antes do novo governo vem coroar o grande culto à personalidade que cerca a gestão de Gilberto Gil no Ministério da Cultura. ''Gil 60 - Todas as Contas'', de Bené Fonteles, traz, em 360 páginas, 260 fotografias do ministro da Cultura (do berço de rodas de carruagem à festa sexagenária do ano passado). Também reúne artigos, textos e notas de pessoas famosas, como Capinam, Rogério Duarte, Rita Lee e outros, sobre o cantor. E um portentoso ensaio de Antonio Risério.
No ministério desde janeiro, Gil vive hoje cercado de uma publicidade exagerada, que começa pelo site hiperpersonalizado do Ministério da Cultura. São 17 discursos e vários artigos dispostos, além de rubricas destacadas como ''Gil no Mundo'', ''Curriculum do Ministro'' e meia dúzia de pregações simbólicas. O discurso de posse do ministro está até hoje em destaque no endereço eletrônico do ministério, totalmente reformulado para abrigar sua nova estrela.
Figura histórica da música, Gil é muito requisitado, dá autógrafos em eventos públicos e não se faz de rogado: aproveita os holofotes para espalhar suas mensagens. Como a que o poeta Thiago de Mello leu neste fim de semana no 13.º Festival Internacional de Poesia de Medellín e 1.º Cumbre Mundial de la Poesia por la Paz da Colômbia, em curso até o dia 22 de junho.
O ministro Gil apresentou-se, por meio do porta-voz Mello, como ''ministro-cantor do governo Lula, um presidente-operário''. Disse que se sente um homem do povo, e manifestou o desejo de que ''a paz invada o coração do povo colombiano que vive o drama de uma guerra civil''. E finalizou: ''A poesia, mãe de todas as artes; e a cultura, poderosa senhora do espírito, certamente serão instrumentos magníficos na construção do processo pacificador na Colômbia e em toda a América Latina''.
Bené Fonteles já tinha organizado um outro volume sobre Gilberto Gil, ''GiLuminoso - A Po.Ética do Ser'' (1999). As fotografias de ''Todas as Contas'' foram feitas, entre outros, por gente como David Zingg e Mario Cravo Neto.
Coroando a paparicação do superministro, a TV Globo exibe amanhã, logo após o ''Programa do Jô'', o especial ''Viva São João'', de 2001, realizado pela Conspiração Filmes, que mostra Gil às voltas como os ritmos nordestinos que tanto o inspiraram.
Canal de TV - Gil, é claro, não se resume a uma estratégia de convencimento pelo carisma. Tem dado mostras de que leva a sério o cargo, e sua atuação destrava a paralisia que tinha se tornado o Ministério da Cultura nos últimos meses da gestão Weffort. A Radiobrás divulgou informação, na segunda-feira, segundo um dos novos projetos no qual o ministro se empenha é a criação de um canal internacional de televisão para comunicação do governo.
O projeto teria sido objeto de conversa entre o ministro e o presidente Luiz Inácio Lula da Silva. De acordo com o ministro, o próximo passo é discutir com a Secretaria de Comunicação do Governo e com a Radiobrás ''a criação desse canal de comunicação do Brasil para o mundo''.
Na última semana, entre outros projetos, consolidou uma iniciativa tomada ainda na gestão de Fernando Henrique Cardoso, o Programa Documenta. Consiste de 276 CD-ROMs, com documentos da história do Brasil recuperados no Arquivo Histórico Ultra Marino, de Lisboa.
No mesmo ato, Gil anunciou estudos para a criação de uma linha de financiamento destinada à preservação da memória histórica. Os financiamentos permitirão que instituições públicas e privadas do País consigam preservar os livros raros, jornais, revistas, documentos manuscritos, partituras, fotografias, entre outros, segundo informou a agência oficial de notícias.
Na semana passada, o ministro lançou uma proposta ambiciosa: a partir de um seminário nacional, ''Cultura para Todos'' (com encontros em Brasília, Recife, Rio de Janeiro, Cuiabá, Belo Horizonte, São Paulo, Porto Alegre, Belém e Salvador), começou a discutir um novo modelo de financiamento cultural.
Os temas abordados vão do papel do governo federal no financiamento da cultura às regras das estatais. Gil define o seminário, que termina no dia 25, com uma ''discussão de estímulo, de provocação''. Ao final do seminário, será encaminhado um documento ao Congresso Nacional, informou o ministério. ''Quando tiver de ser acionado, o Congresso será acionado'', disse o ministro.
Serviço -
Gil 60 - Todas as Contas - Organização de Bené Fonteles. Gegê Edições. 360 páginas, R$ 250,00

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