São Paulo, 07 (AE) - Em sua segunda noite, amanhã (08), o Heineken Concerts99 realiza shows em duas casas. No Teatro Alfa Real apresentam-se, na primeira parte do programa, Antônio Pinto e Jaques Morelenbaum, acompanhados de orquestra de cordas, para mostrar - pela primeira vez ao vivo - a trilha sonora do filme "Central do Brasil"; na segunda parte, o contrabaixista Zeca Assumpção, à frente de quinteto jazzístico, recebe como convidado o guitarrista norte-americano John Scofield. Na Tom Brasil, Gilberto Gil, Egberto Gismonti e Jane Duboc apresentam espetáculo inédito.
Ineditismo é uma característica que o festival preserva. Os espetáculos que apresentam não são daqueles que estão em excursão internacional e vêem até aqui cumprindo agenda. São especialmente programados - uma das poucas exceções é o do "Buena Vista Social Club", da velha guarda de compositores, cantores e instrumentistas cubanos. Eles estão excursionando pelo mundo e tocam sexta-feira, na Tom Brasil, como já se apresentaram terça-feira no Rio de Janeiro. Mas o "Buena Vista" nunca tinha vindo antes ao Brasil. Trilha ao vivo - A música do premiado "Central do Brasil", de Walter Salles Jr., foi composta por Antônio Pinto e Jaques Morelenbaum, que não programavam apresentá-la ao vivo. Vai ser tocada em forma de suíte - obedecendo à ordem em que surge no filme, com ênfase nas cordas, no início, e o surgimento do sotaque nordestino, gradativamente, acompanhando o deslocamento dos personagens. A suíte tem temas do violonista Antônio Pinto, do violoncelista e arranjador Jaques Morelenbaum e temas legitimamente nordestinos, como a "Toada" e "Desafio", do mestre Capiba.
É música descritiva, climática, densa, que será melhor apreciada por quem tenha assistido ao filme; mas sobrevive a ele
com imensa riqueza de melodias (às vezes eventualmente sentimentais; mas é música de cena, afinal) e grande beleza de arranjos. O quinteto comandado por Zeca Assumpção é formado por Jaques Morelenbaum - sempre ele -, ao violoncelo, Nando Carneiro, ao violão, Lelo Nazário, aos teclados, e Caíto Marcondes, na percussão. Zeca vem da escola de Hermeto Paschoal, cujo grupo integrou durante quatro anos, e de Egberto Gismonti, com quem gravou em oito discos.
Gravou também com Chico Buarque, Elis Regina, Caetano Veloso, Wagner Tiso - é um dos grandes do instrumento. Sua atividade de compositor, no entanto, é pouco conhecida. E é a que vai ser apresentada no Heineken. Zeca é autor de trilhas sonoras premiadas para cinema - como a do filme "Barrela", de Marco Antônio Cury -, para televisão, desenhos animados e dança. John Scofield, a quem a revista especializada "Down Beat" elegeu "rei da guitarra jazzística", em 1994, estudou em Berklee com Zeca Assumpção. Tocaram juntos, informalmente - amanhã vai ser o primeiro show, de verdade, deles dois.
Na Tom Brasil, Egberto Gismonti vai abrir a noite tocando com seus filhos, Alexandre (violão) e Bianca (teclados). Este é um dos raríssimos casos em que não entra em conta o orgulho paterno. Os dois jovens filhos do compositor e músico de todos os instrumentos são herdeiros do talento paterno. São rigorosamente prodigiosos - e nem o perfeccionista Egberto permitiria que estivessem em cena, caso contrário.
Egberto e Gilberto Gil estiveram no mesmo palco em Salvador, no mês passado, durante o festival Panorama Percussivo Mundial - Percpan. Mas não tocaram juntos. Vão fazê-lo agora, contando com a colaboração de Jane Duboc, uma das vozes mais afinadas de toda a MPB. Ela vai cantar músicas de um e de outro - aliás, começou com Egberto Gismonti, e já esteve no mesmo disco em que Gil - na trilha do balé "O Grande Circo Místico", de Chico Buarque e Edu Lobo. Cada um deles interpretava uma obra-prima do balé. Vai ser um encontro inédito, mas também um reencontro.

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