'Gilberto Freyre, o Cabral Moderno' abre série dirigida por Nelson Pereira dos Santos no GNT
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terça-feira, 18 de abril de 2000
Por Luiz Zanin Oricchio 
São Paulo, 19 (AE) - "Gilberto Freyre, o Cabral Moderno", primeiro programa da série de Nelson Pereira dos Santos sobre "Casa-Grande & Senzala", a obra-prima do sociólogo pernambucano, vai ao ar sexta-feira, às 22h30, pelo canal por assinatura GNT. Haverá reapresentações no sábado, às 11 horas e às 16 horas, e na madrugada de domingo, às 2 horas. Com locações no Recife, em Nova York, Lisboa e Coimbra, o episódio, uma produção conjunta do GNT, Videofilmes e Regina Filmes, procura apresentar ao espectador o personagem Gilberto Freyre.
Os programas seguintes, que ainda não foram rodados, colocarão a obra de Freyre em sua sequência natural, tal como aparece no livro - "os episódios centrarão foco, respectivamente, no português, no negro e no índio", informa Nelson Pereira dos Santos em entrevista à reportagem. E, claro, principalmente nas relações de portugueses, negros e índios entre si, porque, como se sabe, Freyre procura captar a essência da brasilidade na miscigenação, na mistura de raças.
Para guiá-lo na intrincada malha teórica de Freyre, Nelson encontrou um Virgílio ideal na figura de Edson Nery da Fonseca. Amigo e grande conhecedor da obra de Gilberto Freyre, Fonseca é um lépido senhor de 78 anos, narrador vivaz e com boa presença na tela - na tela pequena, no caso e pelo menos por enquanto, porque não se sabe se a série, no futuro, será transformada em filme para o cinema. Nelson acha que não: "O formato foi todo pensado para televisão, com as pessoas falando para a câmera e isso não dá certo no cinema", diz.
Fonseca, no início, era apenas um consultor de Nelson Pereira sobre Gilberto Freyre. No entanto, de conversa em conversa, o diretor foi se convencendo de que encontrara o mestre-de-cerimônias perfeito para o programa. "O chato é que eu já tinha convidado o José Wilker para essa função, mas ele compreendeu a minha opção", explica Nelson. De fato, Fonseca, por ter convivido com Freyre, por conhecer tão bem a vida e a obra do sociólogo, passa ao programa uma autenticidade que de outra forma ele dificilmente teria.
Pela narrativa de Fonseca, acompanhada pela câmera amorosa de Nelson, o espectador é convidado, neste primeiro programa, a reconstituir a trajetória de vida de Freyre. Da infância no Recife, onde teve uma educação primorosa, parte para os Estados Unidos, onde estuda por alguns anos. De volta ao Recife, começa a tomar parte na vida intelectual do País. Alterna a presença em solo brasileiro com outras viagens. Curiosamente, é este distanciamento que o torna apto para enxergar o Brasil. Tarefa difícil.
Nos Estados Unidos, Freyre convive com colegas de várias nacionalidades. Repara que cada um deles sabe perfeitamente o que significa pertencer ao seu país de origem, ao passo que ele, Freyre, tem dificuldade para entender o que é ser brasileiro. Dessa percepção da identidade difícil do País nasce o impulso para a sua grande obra, "Casa-Grande & Senzala". Livro seminal que, justamente, coloca a especificidade do ser brasileiro na mestiçagem. O que nos diferencia é o hibridismo. Fonseca ressalta a coragem teórica dessa posição. Freyre, em sua época, vai contra a idéia de que a pureza da raça seria um ideal a ser atingido (E, neste sentido, o Brasil seria condenado ao atraso).
Baseado em Franz Boas, com quem estudou nos Estados Unidos, faz um elogio da mestiçagem e mostra como foi a maleabilidade (sexual, inclusive) do colonizador português que permitiu se construísse aqui uma grande civilização. Nelson não toma muito conhecimento dos reparos que se fizeram, e ainda se fazem, às teses de Gilberto Freyre, tidas por conservadoras por alguns críticos. "Há muitos anos, quem era de esquerda, e esse era também o meu caso, só tinha permissão para ler textos nos quais houvesse cenas explícitas de lutas de classe", brinca o diretor. "Hoje os tempos estão mudados e muitos dos desafetos de Freyre foram parar no esgoto da história, enquanto ele continua atual".
Nelson, na verdade, voltou ao texto de Freyre para filmar "Casa-Grande & Senzala" e apaixonou-se por ele. "É maravilhoso, tanto pelas idéias quanto pela qualidade literária", diz. O sabor do texto fica ainda mais perceptível na voz de Edson Nery da Fonseca, capaz de recitar, de memória, trechos inteiros de obras e dos vários poemas que Gilberto Freyre deixou. No ano do seu centenário (Gilberto Freyre nasceu em 1900 e morreu em 1987), e na véspera dos 500 anos do Brasil, a exibição desse programa se torna mais que oportuna. Seu título é tirado de uma frase do próprio Freyre: ele se sentia "redescobridor" de uma nação esquecida que é o Brasil. Um Cabral moderno. Serviço - "Casa-Grande & Senzala". Documentário Gilberto Freyre, o Cabral Moderno, dirigido por Nélson Pereira dos Santos, sexta-feira, às 22h30. GNT


