Gil no embalo do reggae
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sexta-feira, 23 de agosto de 2002
Katia Michelle<br> Equipe da Folha 
Curitiba - Tributos estão na moda. Rita Lee homenageou os Beatles em seu mais recente disco. A Dubas Música acaba de lançar um CD para lembrar Torquato Neto nos seus 30 anos de morte e outros músicos consagrados também embarcaram na onda. Mas poucos tiveram um resultado tão bom quanto Gilberto Gil em seu Kaya N'Gandaya, um tributo a Bob Marley. Com o disco, Gil declara o seu amor incondicional ao ritmo que conheceu nos já distantes anos 70, ainda no exílio em Londres. ''O reggae me seduziu, me cativou'', disse em entrevista, por telefone, à Folha. Gil apresenta o show que leva o mesmo nome do disco amanhã, em Curitiba. No próximo dia 31, ele se apresenta em Londrina.
Kaya N'Gandaya não é um tributo comum. Traz em seu repertório não só canções carimbadas de Marley como músicas que nem sequer fazem parte do imaginário dos mais declarados amantes do reggae. Como ''Time Will Tell'', que no disco aparece como ''Tempo só'', versão assinada por Gil. ''Eu preferi substituir canções mais popularizadas por outras que não tiveram grande presença de consumo'', justifica. A idéia, conforme explica o músico era fazer um disco mais ''lado B'' (saudades do vinil?), ou seja colocar as canções ''mais escondidas de Marley''.
Mas o disco também traz hits como ''No Woman, no Cry'' e ''Three Little Birds'' e algumas versões para músicas consagradas, como ''Kaya'' (maconha, segundo Marley) que deu nome ao disco se transformando em ''Kaya N'Gandaya''. Na versão, Gil traduz: ''Eu posso ver, o sol aparecer sobre a chuva que cai. Tão bom rever a tribo, o fumacê do cachimbo da paz''. Mas Gil garante que a adesão ''ao cachimbo da paz'' é coisa do passado. Aos 60 anos, o músico mostra uma versão bem mais ligth de sua personalidade do que nos anos 70, quando revolucionou a música brasileira ao lado de Caetano, Gal e a trupe tropicália.
Gil aliás, diz se sentir confortável com o título um tanto messiânico que lhe é atribuído. ''Isso veio naturalmente, assim como o reconhecimento internacional. São 30 anos ininterruptos de carreira e excursões anuais'', lembra. Para ele, a consolidação é inerente ao processo que a própria música brasileira atravessou. Contar a história de Gil é mencionar esse processo,
''Kaya N'Gandaya'' faz parte de uma carreira bastante eclética e sem dúvida sólida do músico baiano. Assim como quase toda a trupe dos velhos baianos, ele começou a aparecer em festivais. Ele se apresentou pela primeira vez na Europa (Portugal e Espanha), no show ''Momento 68''. Quando voltou para o Brasil deu início a mais duas gravações: a do seu segundo LP, tropicalista, e a do LP coletivo do tropicalismo: ''Tropicália ou Panis et circensis'', destacando a sua canção-manifesto ''Geléia geral'', em parceria com Torquato Neto.
A paixão pelo reggae foi concomitante à essa época. ''Eu ouvi pela primeira vez o reggae em Londres, mas foi no Brasil que comprei todos os discos de Marley''. A influência já javia se manifestado em músicas como ''Vamos fugir'' (84) e ''Barracos'' (85), ambas prometidas para o repertório do show.
Essa não foi a primeira vez que Gil homenageou um músico. O seu disco anterior, com a música tema do filme ''Eu Tu Eles'', é um tributo a Luiz Gonzaga. No encarte do disco, Gil assina uma (inusitada) comparação entre Marley e Gonzaga. ''Na verdade, encontrei uma espécie de similitude entre o Cangaceiro e o Rastaman. Ambos causando-me a mesma impressão de estranheza, beleza e grandeza em seus processos/projetos de vida (..) Gonzaga: um cangaceiro implícito, idílico. Marley: um Rastaman explícito, real'', escreve.
''Kaya'' também não será a última homenagem às influências de Gil. Ele já programa um disco com regravações de velhos sambas. ''Mas para isso tenho que ouvir muito, com muito cuidado na escolha'', adianta. Portanto, o disco deve ser antecedido por um CD com canções próprias, com lançamento previsto para o próximo ano ou ainda 2004. Gil revela que para esse próximo projeto pretende incursionar pela música eletrônica. Enquanto isso, acompanha as gravações de ''Kaya N'Gandaya ao vivo'', que deve ser lançado ainda esse semestre.
Serviço: Show com Gilberto Gil. Domingo, às 20 horas, no Teatro Guaíra. Ingressos a R$ 50,00 (platéia) R$ 40,00 (1º balcão) e R$ 30,00 (2º balcão).


