Gil merece o prêmio, mas o disco não
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quinta-feira, 25 de fevereiro de 1999
Antônio Mariano Júnior 
Idiota de quem desprezar ou menosprezar o conjunto da obra de Gilberto Gil. O velho baiano merece muitos prêmios, muitas deferências, muito respeito, muitos aplausos. Entretanto, em se tratando do Grammy, uma pergunta se faz necessária: qual o critério que a comissão julgadora utilizou para premiar Quanta Gente Veio Ver como o melhor disco da categoria World Music? Ora, trata-se de um disco de regravações. E não se bastasse registradas ao vivo - expediente que há longa data vem se tornando lugar-comum na indústria fonográfica brasileira. Quanta gente Veio Ver é um produto simples demais para merecer um prêmio de propalada importância como Grammy.
Ok, Gil e um time de respeitáveis músicos fizeram releituras competentes ouvidas por quase 240 mil pessoas do Brail, Estados Unidos, América Latina e Europa. Mas a verdade é que Quanta Gente Veio Ver não acrescenta quase nada à discografia de Gilberto Gil. É um disco feito para fãs de última hora. Daqueles que acham maravilhoso o mestre baiano cantar Palco, desconhecendo que tal música saturou-se em função das milhares de regravações feitas pelo próprio Gil e outros tantos (entre eles, até Angélica, aquelazinha).
Muito bem, o Grammy na categoria World Music veio parar, pela segunda vez consecutiva, nas mãos de um brasileiro - Milton Nascimento e o seu Nascimento foram os vencedores do ano passado. E, pela segunda vez consecutiva, o tal prêmio é concedido a trabalhos brasileiros mornos, sem muito sabor. Sem muita originalidade.
Tivesse a comissão julgadora ou corpo de jurado ou sabe-se lá quem informação suficiente sobre a obra de Gilberto Gil já o teriam premiado por trabalhos anteriores que se apresentaram, se não plenamente originais, ao menos vigorosos. Se é para citar um mais recente, citemos Quanta, o disco duplo que deu origem ao Quanta gente veio ver, o grammyado.
Mesmo que Gilberto Gil tivesse se mostrado um tanto quanto pretensioso ao trabalhar musicalmente o conceito de ciência e arte, Quanta, o disco duplo e de estúdio, é infinitamente melhor que sua continuação tecnicamente perfeita mas esteticamente manjada. Porém, justiça seja feita: no disco ao vivo vale a pena botar um bom reparo e deitar atentos ouvidos em três faixas inéditas, na linha techno-oba-oba, em que Gil, Lulu Santos e João Donato dão uma versão modernex para a banalidade que atualmente assola letras e músicas do Carnaval baiano.
Três bons momentos mas não o suficiente para se gritar vários ohs pela casa afora. Tá, Gil está premiado com o Grammy. Palmas para ele, ele merece. Mas não, não mesmo por Quanta Gente Veio Ver que Gilberto Gil considera um de seus melhores trabalhos. A comissão julgadora da categoria World Music acertou ao premiar um artista tão importante para a cultura brasileira - e não só cultura musical - como Gilberto Gil. Mas se equivocou em escolher um disco pouco brilhante para conceder tal honraria.


