Gilberto Gil tinha nove anos quando pediu uma sanfona à sua mãe, inspirado pelos xaxados de Luis Gonzaga, que não se cansava de ouvir no rádio e nos alto-falantes de Ituaçu.
O rei do baião foi sua primeira influência musical, aquela que o ajudaria inclusive no aprendizado da famosa batida de violão de João Gilberto. Não por acaso, coube a ele assinar o prefácio da biografia ‘‘Vida de Viajante – A Saga de Luis Gonzaga’’, publicada há quatro anos pela editora 34.
Por isso, seu novo disco ‘‘Gilberto Gil e as Canções de Eu, Tu, Eles’’ (Warner) pode ser visto como um tributo ao mestre. O CD apresenta a trilha sonora do filme ‘‘Eu, Tu, Eles’’, de Andrucha Waddington, que traz Lima Duarte, Regina Casé e Stênio Garcia no elenco e acaba de conquistar crítica e público no festival de Cannes.
O repertório reúne seis sucessos de Gonzagão, quatro de outros compositores e quatro do próprio Gil (duas delas inéditas). A garimpagem do velho Lua incluiu ‘‘Asa Branca’’, ‘‘Juazeiro’’, ‘‘Assum Preto’’, ‘‘Pau-de-arara’’, ‘‘A volta da Asa Branca’’ e ‘‘Qui nem Jiló’’ (esta a mais bonita do CD). As versões sugerem fidelidade às gravações originais com os arranjos enfatizando sanfonas, triângulo, ganzá, zabumba, caxixi, pandeiro e flauta.
O compositor chega a tocar acordeom na vinheta ‘‘Casinha Feliz’’, já gravada no álbum ‘‘Dia Dorim Noite Neon’’ (1985), e na inédita ‘‘O Amor Daqui de Casa’’ (‘‘A menstruação não desce / A chuva não dá sinal / Quem no mel seu mal padece / Seu bem conserva no sal / Vai doer de novo o parto / Vai secar de novo o açude / Vida aqui tem sala e quarto / Quem não couber que se mude...’’).
A atmosfera de salão predomina ao longo das faixas, onde canções-lamento como ‘‘Juazeiro’’ e ‘‘Pau-de-Arara’’ são exceções num repertório repleto de arrasta-pés. Há ainda a regravação de ‘‘Lamento Sertanejo’’, parceria de Gil com Dominguinhos e registrada no álbum ‘‘Refazenda’’ (1975). Entre as composições de outros autores, chama atenção a faixa ‘‘Esperando na Janela’’, de Targino Gondim e os compadres Manuca e Raimundinho do Acordeom.
Targino, descoberto pela atriz Regina Casé em suas andanças pelo país, já está sendo chamado de o novo bamba da sanfona. Com 5 CDs independentes já lançados, ele acaba de ser contratado pelo selo Geléia Geral, de Gil, que vai produzir seu próximo trabalho.
Voltando à trilha sonora, as duas canções inéditas do baiano destoam da sonoridade orgânica dominante recorrendo a programações eletrônicas. Tanto ‘‘O Amor Daqui de Casa’’ quanto ‘‘As Pegadas do Amor’’ refestelam timbres sintetizados incluindo participações especiais de Marcos Suzano na percussão, Heraldo do Monte na viola de 10 e Moreno Veloso no pandeiro.
Todas as faixas, com exceção de ‘‘O Último Pau-de-Arara’’, aparecem no filme ora tocadas no radinho de pilha do personagem Osias (Lima Duarte) – em interpretações do próprio Gonzaga – ora executadas por bandas que animam as festas de Juazeiro (cidade baiana que serviu de locação para as cenas).
‘‘Eu, Tu, Eles’’ é a quinta trilha assinada por Gil, que já cuidou da direção musical dos filmes ‘‘Brasil 2000’’ (de Walter Lima Júnior), ‘‘Jubiabᒒ (Nelson Pereira dos Santos), ‘‘Quilombo’’ e ‘‘Um Trem para as Estrelas’’ (ambos de Cacá Diegues).
Ainda no cinema, o compositor participou como ator do longa ‘‘Corações a Mil’’ (de Jom Tob Azulay) e teve algumas de suas músicas incluídas nos filmes ‘‘Viramundo’’ (dirigido por Geraldo Sarno) e ‘‘Roda’’ (Sérgio Moniz). Na nova empreitada, a pretexto de compor a trilha sonora e prestar uma homenagem a Gonzaga, ele revisita suas mais remotas inclinações musicais.
A tônica regionalista do CD, contudo, tende a espantar os que se educaram no cosmopolitismo tropicalista do artista.

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