Chama-se ‘‘Ensaio Geral’’, sai com uma tiragem de 10 mil exemplares e chega às lojas de todo o Brasil até segunda-feira com um adendo com os seguintes dizeres: ‘‘lançamento histórico’’. E de fato é um lançamento histórico. Vale a pena comprar. Quer dizer, admiradores mais abastados certamento não vão titubear em enfiar a mão no bolso e tirar algo entre R$ 250 e R$ 290, preço mínimo e máximo sugerido pela gravadora. Trata-se de um pacote com 11 CDs remasterizados de Gilberto Gil, incluindo quatro discos inéditos e um CD-brinde com duas faixas. Ou seja, estão disponíveis a quem possa interessar todos os discos solo do cantor e compositor baiano pertencente à Polygram, agora denominada gravadora Universal, feitos entre 67 e 74.
‘‘Ensaio Geral’’ destoa de projetos similares porque não traz apenas discos fora de catálogo ou produtos cuja qualidade sonora original foi infinitamente melhorada. Tá, tem isso. Mas sua importância maior recai sobre o fato de terem sido feitas diversas escavações, como num sítio arqueológico, e encontradas composições desprezadas pela gravadora ou que, se vieram a público, passaram batidas.
O responsável por esse trabalho arqueológico, como Gil define, é o jornalista Marcelo Fróes. Foram três anos de pesquisa. ‘‘Nunca pensei que esse trabalho fosse chegar a isso’’ - diz ele referindo-se à quantidade de material que originou ‘‘Ensaio Geral’’. Ao seu ver, renderia no máximo um CD duplo. Mas Fróes, junto com Gilberto Gil, conseguiu convencer a cúpula da Universal (ex-Polygram) a soltar todo o material. E com direito a um belo e grosso encarte contendo fotos e textos.
O empenho de Marcelo Fróes é admirável. ‘‘Se fizessem um exame de DNA no projeto vocês me veriam lᒒ - brinca. Um projeto nestes moldes - o eleito foi Caetano Veloso - já teve o pontapé inicial. Ele não quis dar mais informações nem data de lançamento.
Voltando a ‘‘Ensaio Geral’’, Fróes recuperou maravilhas, algumas dadas como perdidinhas da silva. É o caso da trilha sonora do filme ‘‘Copacabana Mon Amour’’ (70), do cineasta Rogério Sganzerla. A fita K7 contendo a gravação estava em poder de um colecionador que havia comprado o acervo musical da gravadora inglesa onde foram registradas as 6 longas faixas. ‘‘Copacabana Mon Amour’’ é uma das sensações do pacote ‘‘Ensaio Geral’’, na categoria ‘‘discos inéditos’’. Outra grande maravilha, inédita, é o CD duplo ‘‘Cidade do Salvador’’ (73), onde Gil parte para o experimentalismo - a faixa-título é um bom exemplo. Deste CD, a música mais conhecida é ‘‘Eu Quero Um Xodó’’ (Dominguinhos-Anastácia), solta às pressas num compacto simples. Uma ou outra faixa tornou-se conhecida através de outros intérpretes ou mesmo pelo próprio Gil (através de projetos especiais ou compactos).
Para os álbuns já conhecidos, foi necessária a adição de faixas bônus. Que se adaptam bem ao espírito do disco onde foram incluídas. Outro ponto favorável da garimpagem foi acrescentar gravações tecnicamente descartáveis mas historicamente válidas - algumas feitas em mesa de quatro ou oito canais. ‘‘Com Medo, com Pedro’’ e ‘‘Cultura e Civilização’’ (69), por exemplo, foram gravadas numa fita demo com intuito apenas de orientar a gravação que Gal Costa faria.
Do inventário feito pelo jornalista, ficou de fora apenas ‘‘Rato Miúdo’’, resto da sessão de gravação do projeto ‘‘Sítio do Pica-pau Amarelo’’ (76). O motivo: nem ele nem Gil conseguiram descobrir o nome do (s) autor (es).
Enfim, ‘‘Ensaio Geral’’, o pacote como um todo, tem grande mérito por mostrar as diversas fases de Giberto Gil - das influências nordestinas até o rock, das letras escritas em português ou em inglês (durante o exílio em Londres). Fases, aliás, produtivas, geniais e deliciosamente inquietantes de Gilberto Gil.
O jornalista Antônio Mariano Júnior viajou ao Rio de Janeiro a convite da gravadora Universal.ReproduçãoPacote lançado pela Universal é um trabalho de garimpagem do jornalista Marcelo Fróes sobre a obra de Gilberto Gil, incluindo canções antes desprezadas pela gravadoraA gravadora Universal
(ex-Polygram) está
lançando ‘‘Ensaio Geral’’,
com 11 CDs de Gilberto
Gil, alguns inéditos

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