São Paulo, 29 (AE) - A primeira audição do disco evoca um cruzamento híbrido entre Ligeti e Frank Zappa. Na segunda, desaparecem os ecos desses experimentadores para dar lugar a um compositor do qual o Brasil ainda vai ouvir falar muito, o flautista e regente paulista Gil Jardim, que só agora lança seu primeiro CD, "O Soprador de Vidro", trilha sonora do balé "Ponto Vitral". Montado pelo Balé do Teatro Castro Alves, de Salvador, o espetáculo, coreografado por Luiz Arrieta, vai ser encenado em São Paulo, no fim de abril, no Sesc Vila Mariana.
Para quem não consegue esperar até lá, o disco acaba de ser lançado pelo selo Núcleo Contemporâneo, criado pelo músico Benjamin Taubkin, espécie de ersatz brasileiro do produtor alemão Manfred Eicher, que fundou o prestigiado selo ECM. Apostando no talento de Jardim, Taubkin produziu um disco sofisticado, reunindo intérpretes como a soprano Celine Imbert, o cantor Milton Nascimento, o percussionista Naná Vasconcelos e alguns dos melhores músicos de São Paulo - o jovem e premiado pianista André Mehmari, o flautista Antonio Carrasqueira, o clarinetista Luca Raele, o violonista Edelton Gloeden, o violista Marcelo Jaffé e o vibrafonista Carlos Tarcha, entre outros. Como Zappa - Músicos de formação erudita, os participantes do disco de Jardim são essencialmente intérpretes abertos à experimentação, que, no caso particular do compositor, diz respeito não só à sua sintaxe musical como a novos instrumentos - feitos de vidro por Walter Teixeira e construídos com supervisão do autor. Eles buscam encontrar correspondência sonora para sua alquimia verbal, que mistura textos bíblicos, ensaios de Câmara Cascudo sobre rituais de origem africana e poemas de Adélia Prado.
Esse encontro pode sugerir falta de direção, mas, como Zappa, Gil Jardim sabe exatamente o que quer ao transitar entre dois mundos, o erudito e o popular. "O Soprador de Vidro" faz a ponte entre a cultura arcaica e a modernidade, recorrendo metaforicamente à cena de origem para mostrar que a tese do irmão do cineasta Nelson Pereira dos Santos, pode, enfim, decifrar um mistério. Segundo José Pereira dos Santos, veterano vidreiro, as primeiras formações vítreas nasceram com o big-bang. Gil Jardim aceita essa tese para desenvolver seu prelúdio musical sobre o Gênese, associando a procura da forma primordial à atividade do soprador de vidro, que seria a de "reorganizar o cosmo".
Em síntese, a idéia que norteia a criação do disco é uma alegoria da recriação permanente do universo. Jardim faz música programática com instrumentos que reproduzem o som inaudito do primeiro dia do cosmo. Sua modéstia não o deixa admitir que o resultado seja esse. Ele apenas sugere que a relação com o texto bíblico e as referências literárias estão na esfera da ambiência. Ele entende timbre como textura e, a exemplo dos pintores cubistas, procura na fragmentação (sonora, no caso) o entendimento do todo. "A massa sonora precisa ser decupada, decifrada", defende, justificando seu patchwork musical como a junção de fragmentos que não pretendem ter significado como frases isoladas, mas como parte dessa textura.
O crossover de Gil Jardim tem origem nas teorias musicais do compositor e ensaísta norte-americano Gunther Schuller, que deu novo tratamento ao som erudito ao usar excertos da produção popular em obras que pertencem à corrente por ele batizada de "third stream" (terceira corrente). É certo que os lojistas ficam loucos porque não encontram escaninho capaz de classificar a produção desses músicos. Gil é jazz ou música erudita? É MPB ou pode entrar na seção de world music? Nenhuma das anteriores. Não há classificação possível para um compositor com trânsito livre. A única fronteira que ele admite é formada pela memória dos mestres.
"Quando penso em música de balé ou de teatro, os nomes de Stravinski e Bernstein surgem automaticamente", revela. Eles representam, efetivamente, fronteiras, que inibem outros autores
mas Jardim presta mesmo tributo a Frank Zappa em seu primeiro disco. A referência mais evidente é um dos últimos discos do roqueiro americano, Yellow Sharks. "Como ele, vivo no fio da navalha", conta. "Profissionalmente é um problema, porque os músicos populares me tomam por erudito e os eruditos me olham como popular", diz, lembrando que o preconceito no meio musical é quase tão escandaloso como entre os lojistas que vendem discos. Grandes parceiros - Nascido em Ourinhos há 31 anos e pai de dois filhos, Gil Jardim tornou-se regente das turnês do cantor mineiro Milton Nascimento e colaborador habitual de Egberto Gismonti e Naná Vasconcelos. Desde 1984 dá aulas de regência orquestral no Departamento de Música da Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo e manteve, até 1985, o grupo Papavento, que reunia músicos como Gil Reyes e José Roardo. A luta pela sobrevivência fez Gil participar de outros projetos menos ambiciosos do que o Papavento. Ele se cansou de compor jingles para comerciais de hambúrguer desde que virou profissional.
Gil veio para São Paulo aos 16 anos, para receber um prêmio no Municipal, tocando acordeão. Os pais gostavam de música caipira e a sanfona acompanhou toda a adolescência do músico, que finalmente assumiu a flauta como seu instrumento até tornar-se maestro. A palavra mestre assume outra dimensão em sua vida. Didático, ele começa em junho uma série no Sesc Pompéia, Jogos Musicais, assumidamente inspirada num projeto do compositor americano Leonard Bernstein (West Side Story). "O projeto será dirigido a crianças e adultos e vai ter a forma de uma sonata", conta.
Como a estrutura da sonata, definida pela exposição, desenvolvimento e reexposição do tema, o curso do Sesc Pompéia vai unir teoria e prática com a participação de convidados especiais como Egberto Gismonti, também seu parceiro de palco em outubro, num show que será dedicado à obra do compositor cubano Leo Brouwer. Ao mesmo tempo Gil Jardim desenvolve o projeto de um musical com argumento de Naum Alves de Souza e Chico Buarque, "Velas Abertas", do qual vai participar a compositora Joyce, hoje endeusada por gênios do jazz americano como o trompetista Wallace Rooney. Gil está, portanto, no lugar que merece: ao lado dos maiores nomes da música brasileira.

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