Gil esquenta uma noite fria
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segunda-feira, 02 de setembro de 2002
Antônio Mariano Júnior<br> Reportagem Local 
O frio carcomia a todos em dó maior. Encapotados e encapotadas se espremiam como se tentassem formar uma muralha humana para combater o vento. De repente, um cara magrinho, vestido com camisa vermelha e calça branca, começa a cantar sentado num banquinho. ''É ele!'', espantavam-se alguns. E era mesmo. Sem maiores alardes ou entrada triunfal, Gilberto Gil começou o show diante de uma multidão ainda dispersa à espera da grande atração da noite. Quando todos se certificaram de que Gil estava de volta a Londrina depois de quase 20 anos, a ovação foi geral. Em clima intimista, o cantor e compositor baiano abriu o show ''Kaya N'Gan Daya'', um tributo a Bob Marley, ocorrido sábado no Parque de Exposição Ney Braga, para uma platéia estimada em mais de 10 mil pessoas.
Após as duas primeiras músicas, Gil sentiu na pele o frio avassalador e convidou a todos a dançarem e pularem para espantar a baixa temperatura. E todos obedeceram. Nem precisava pedir: quem foi à festa, promovida pela Casa Chá-lá-lá, estava disposto a enfrentar qualquer condição climática para rever o velho e bom baiano. Que, diante da receptividade, cantou, falou, dançou, saracoteou e prolongou o show o mais que pôde. Em outras palavras, Londrina acolheu Gilberto Gil com muita reverência. E Gil, generoso, retribuiu à altura.
Com o vento, a acústica acabou sendo um pouco prejudicada para o público posicionado mais distante do palco. Mas quem estava no garagarejo ou no foco das potentes caixas de som não teve o que reclamar. Detalhes, detalhes. Gil fez as pazes com Londrina, ou vice-versa, em grande estilo. Era visível a alegria do artista que cantou vários sucessos de Bob Marley, alguns hits de sua autoria e uma versão interessante de ''Garota de Ipanema'' em clima de reggae. Ou ''samba-reggae'' como denominou a releitura bastante particular do clássico de Tom Jobim e Vinicius de Moraes.
Quase duas horas de espetáculo. Quase duas horas de celebração musical. Quase duas horas para matar a saudade de Gil. Que distribuía beijinhos, fazia caretas, cantava com vigor, pedia corinho. O poeta estava feliz. Tão feliz que o frio da madrugada foi aplacado com ondas imensas de calor exaladas do palco. Se Gil prestava homenagem a Marley, o público rendia tributo a Gil. Quando todos já estavam aquecidos, deixou o palco da maneira que entrou: sorrateiramente. Nem deu tempo para o famoso ''mais um''. O encontro com Frejat, outra atração da noite, acabou não acontecendo. O cantor, guitarrista e discípulo ficou apreciando, num cantinho do palco, o mestre se exibir. Por sua vez, Frejat subiu aos palcos lá pelas tantas e apresentou um show redondo e competente. Ganhou aplausos e mais aplausos. Enfim, deu conta e bem do recado.
A festança musical que contou com as participações das bandas locais Set Satélite, Acustico y Guerrero, Devacan e Tribo da Lua até agora foi o melhor evento de grande porte ocorrido em Londrina. Ousadia dos rapazes da Casa Chá-lá-lá que realizaram o megavento que trouxe novamente a Londrina um dos maiores artistas da MPB. Entre apostar no óbvio ou ficar na pasmaceira, Ricardo Coelho, Raul Bueno, João Paulo Miquelão e Rafael Kemmer, a turma ''Chá-lá-lá'', decidiram ficar com a primeira opção. Quatro jovens que estão conseguindo marcar presença e lembrar a uns e outros que Londrina não é só ninho de gralhas sertanejas ou de ídolos da canção popular desvairada. Marketing cultural com qualidade, em outras palavras.
Ah, Gil... Ah, Gilberto Gil... Tomara que não demorem mais duas décadas para Londrina revê-lo.


