Gibson na pele de um milionário
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 17 de janeiro de 1997
Carlos Eduardo Lourenço Jorge Especial para a Folha 2 
ReproduçãoO Preço de um Resgate: thriller é sucesso de bilheteria com Gibson no papel principalPara uma indústria que acaba de anunciar o espantoso lucro de 6 bilhões de dólares, somente no exercício cinematográfico de 1996, nada parece impossível. Assim, mais significativo do que saber se O Preço de um Resgate (veja a programação de cinema na página 3) é um bom ou um mau filme convém tirar o chapéu para os geneticistas hollywoodianos, em permanente vigília experimental buscando fórmulas de laboratório destinadas a estourar as bilheterias. Logo após a entrega do Oscar-96, a Touchstone, uma das subsidiárias Disney (divisão de filmes adultos), lançou mão de uma dessas alquimias prodigiosas. Através dos produtores Brian Grazer e Scott Rudin, a empresa conseguiu reunir, evidentemente a peso de ouro, de um lado o recém-laureado e bom moço Mel Gibson, um autêntico Braveheart para os padrões de bravura do cinema americano; e de outro o diretor e da mesma forma bom moço Ron Cocoon Howard, recém-chegado de uma milionária jornada espacial dirigindo Apolo 13. A junção dessas forças que se chocaram de frente na última entrega da estatueta, além do concurso de um roteirista de peso (Richard Price) e de um respeitável elenco de apoio, resultou num dos mais eletrizantes thrillers dos últimos anos, a julgar pela ruidosa adesão do grande público e por um bom número de críticas, se não muito entusiasmadas, pelo menos bastante simpáticas.
Mano a manoFoi como eu estivesse filmando no Grand Canyon, brincou o diretor Ron Howard comparando as locações novaiorquinas de O Preço de Um Resgate ao claustrofóbico set de Apolo 13. O filme proporciona a Mel Gibson saltar da Escócia medieval para as ruas de Nova York. É aqui que a ex-máquina de matar reencontra um cenário urbano onde se desenrola seu drama familiar. Gibson é um magnata, um opulento mega-empresário dono de companhia aérea. Tem uma bela esposa (Rene Russo), um filho adorável (Brawley Nolte, estréia do filho do ator Nick Nolte), um negócio que é literalmente um avião e com certeza aspirações políticas. Ele experimenta este tipo de poder. E gosta dele. E então, numa ensolarada manhã no Central Park, o filho de dez anos desaparece.
Se você é pai, este é seu pior pesadelo, diz Gibson com um histórico de seis paternidades mas felizmente nenhum sequestro em família. Aterrorizado, o personagem entretanto não reage de maneira ortodoxa, para desespero do agente do FBI (Delroy Lindo), que age pela cartilha. Movido pela raiva, o que ele faz exatamente é pegar os dois milhões de dólares exigidos em troca do garoto, dobrar esta quantia e oferece-la a quem trouxer o sequestrador. Vivo ou morto. Duas coisas são previsíveis durante o processo: uma crise conjugal e as negociações passarem para o controle direto do multimilionário, mano a mano.
SuspenseDepois da exaustiva e rentável viagem de sua Apolo 13, o diretor Ron Howard pretendia tirar um longo período de férias. Mas não resistiu à oportunidade de dirigir Harrison Ford, Tom Cruise ou Mel Gibson numa trama policial, gênero inédito para ele (obviamente Gibson foi o escolhido). E havia ainda a chance de contar mais uma vez com Gary Sinize, o astronauta que fica em terra em Apolo 13. Em O Preço de Um Resgate ele tem um papel-chave como um policial de Nova York. Quanto a Gibson, seu retorno ao policial urbano foi precedido em alguns dias por um incidente que assustou ator e produção. Uma crise aguda de apendicite, detectada tardiamente e em circunstancias complicadas, levou o ator num sábado à noite a uma cirurgia de emergência. Bem sucedida, a operação serviu de teste para Gibson, que alguns dias depois voltava à velha rotina de perseguições e saltos sobre táxis na Madison Avenue. E serviu também como uma espécie de preview para uma solução de suspense eletrizante elaborada pelo diretor Howard.


