Gibi na mão das meninas
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 26 de dezembro de 2001
Nelson Sato<br>Reportagem local 
Antes, as meninas só tinham a turma da Mônica. Gibi ''era coisa'' de menino. Recentemente, com a explosão de mangás nas bancas, já há quem fale num domínio feminino entre os consumidores de HQs. Será? Para o sócio-proprietário da Batbanca, Eduardo Baggio Vieira, a mudança de perfil no público não chega a tanto mas é visível.
''Muitas meninas estão comprando mangás, especialmente a série da Sakura Card Claptors. É um fenômeno que mudou a cara do mercado. É a principal novidade dos últimos tempos'' diz ele. Sakura é publicada pela editora JBC e narra as aventuras de uma menina comum que um dia abre sem querer um livro e deixa escapar um punhado de cartas colecionáveis as Cartas Clow.
Essas cartas contêm poderes mágicos capazes de destruir a Terra se não forem recuperadas. Júlio Moreno, diretor-geral da JBC, lembra que o sucesso da personagem japonesa pode ser constatado pelas cartas e telefonemas de fãs da série. ''As meninas querem saber tudo sobre a heroína, perguntando se vamos lançar bonecas e outros artigos relacionados à saga'' diz.
A estudante Débora Iuri Tazima, de 13 anos, é uma das leitoras de Sakura. Não só dela, mas também das Guerreiras Mágicas de Rayearth, outro hit do gênero. Ela conta que nunca gostou de comics, os gibis de super-heróis norte-americanos. ''Os mangás são mais engraçados e os traços são bem melhores'' salienta.
Viviane Fujita, 13 anos, tem a mesma opinião. ''Antes eu lia a Mônica, mas depois que começaram a lançar mangás passei a comprar tudo. Gosto de Sakura, Guerreiras Mágicas, Dragon Ball, Evangelion e Samurai X'' enumera. A lista, que revela alguns dos títulos publicados no Brasil nos últimos dois anos, poderá crescer na próxima temporada.
O sucesso dos mangás está provocando uma verdadeira correria nas editoras nacionais, todas disputando o licencialmento de séries japonesas. Júlio Moreno informa que a JBC prepara novos lançamentos, um deles totalmente dirigido para o público feminino. ''Só não posso revelar o nome'' diz, temendo o olho gordo da concorrência.
O mais curioso da mangamania é que muitas meninas não se contentam em apenas ler as revistas, mas querem também produzir suas próprias histórias sequenciadas. É o caso de Karina Érica Horita, 19 anos, que está lançando o fanzine Kanetsu II. A publicação chegou às bancas esta semana. Karina lê mangás em japonês.
Do que saiu até agora no país, ela já conhecia na versão original. ''Os títulos publicados no mercado brasileiro foram muito bem escolhidos'' garante. Palavra de quem entende do assunto. Na semana passada, Karina ministrou um curso de pintura em acetato (para desenho de aninação) na Gibiteca de Londrina. A mangamania, porém, não conquistou todas as leitoras de quadrinhos.
Marcela Feijó, 22 anos, considera as histórias do gênero ''muito violentas''. ''Acho que elas não passam mensagens legais'' nota. Mariana Daou Verenhitach, 21 anos, por sua vez, observa que os mangás são voltados para uma faixa etária menor que a sua. Por isso, ela prefere mergulhar nas revistas da Vertigo, a linha de títulos adultos da DC Comics.
''Gosto de ir experimentando. Compro revistas avulsas e vejo se vale a pena acompanhar as histórias do personagem'' explica. Um deles pelo menos fez a sua cabeça. Sandman, o herói gótico criado por Neil Gaiman, virou objeto de culto e principal ítem de sua coleção de HQs.


