Gestos que quebram o silêncio
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quarta-feira, 15 de maio de 2002
Francelino FrançaReportagem Local 
O Centro Teatral e Etc e Tal, coordenador da Oficina Palavra do Silêncio, do Filo 2002, é responsável pela descoberta de talentos da mímica na cidade. Jovens do Instituto Londrinense de Estudantes Surdos (ILES) participaram da primeira oficina de alfabetização mímica no ano passado, quando Álvaro Assad desvendou o dom cênico de vários adolescentes. Jovens potencialmente talentosos e invisíveis em se tratando do acesso à produção cultural.
Os deficientes auditivos no palco têm uma vantagem sobre os atores não deficientes, pois eles possuem uma domínio espacial mais apurado. Independente dessa vantagem, Álvaro Assad, diretor da companhia carioca, identificou jovens vocacionados e talentosos e os conduziu a um espetáculo em que a poesia visual domina a cena. Em Palavras do Silêncio, apresentada terça-feira no Teatro Zaqueu de Melo, o diretor costurou uma sequência de esquetes, em que sobressai unicamente a figura do ator. Assad debastou qualquer elemento que pudesse concorrer com a apurada partitura de gestos dos comediantes. E o que submergiu no vácuo do silêncio foi um espetáculo de simplicidade na proposta e sofisticação na realização. Essa combinação instaurou uma comunicabilidade instantânea com a platéia.
Os principais quadros vivos mostraram um nadador, um cirurgião amalucado, um domador carismático, uma mão com vida própria e um halterofilista. Os mímicos do ILES mostram fábulas a partir de um encadeamento de episódios gestuais, com total domínio da pontuação dos movimentos. O espetáculo fluiu de forma equilibrada de um quadro para outro, alternando poesia e humor.
No elenco de 11 mímicos, Felipe Araújo Zambroti, que já se destacou no ano passado, evoluiu fantasticamente nesse espetáculo. Sua expressividade e controle da estrutura narrativa nos episódios O Cirurgião e Mão Louca o credencia a se apresentar em qualquer palco do País.
Provavelmente, esse é o único grupo de atores mímicos deficientes auditivos no Brasil, com tanto potencial a ser explorado num esquema de trabalho sistematizado e regular que é imperativo que eles continuem a desenvolver o dom cênico, agora de conhecimento de todos. No dia 17 de maio, Palavras do Silêncio será apresentada no ILES, às 10 horas.


