Gestão na Pinacoteca garante indicação de Emanoel Araújo ao Prêmio Multicultural
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segunda-feira, 08 de março de 1999
Por Maria Hirszman 
São Paulo, 09 (AE) - Emanoel Araújo foi indicado para receber o Prêmio Multicultural Estadão pela sua primorosa gestão da Pinacoteca do Estado. Ele conseguiu, em pouco mais de seis anos de mandato, não apenas transformá-la num endereço indispensável para quem quer acompanhar a programação de artes plásticas da cidade, como dar uma nova cara e personalidade ao museu. No início da década, a Pinacoteca recebia menos de 2 mil visitantes por mês. Em 1994, quando realizou a exposição de Rodin, estabeleceu um novo recorde de público ao atrair cerca de 150 mil pessoas.
Agora, após a grande reforma realizada no prédio projetado por Ramos de Azevedo, a Pinacoteca passa a abrigar uma programação variada, dando o destaque merecido ao acervo acumulado ao longo de todo este século, que permite ao visitante passar um dia inteiro visitando as diversas atrações em cartaz no museu.
Segundo Emanoel Araújo, esses seis anos e meio no comando da Pinacoteca foram uma experiência muito intensa. "Trata-se de uma relação extremamente forte, afetiva e neurótica", reconhece ele, lembrando que foi uma conquista permanente, a cada exposição. "Não foi à toa que tive um enfarte", brinca.
Controlando tudo com mão de ferro, ele conquistou o respeito e a admiração de seus subordinados. No entanto, em vez de imaginar-se com um futuro tranquilo no comando da instituição, Araújo pretende encerrar em breve seu trabalho como diretor da Pinacoteca. "É preciso deixar espaço para os outros", justifica. Entre os desafios que prevê para seus sucessores estão o crescimento da coleção e a informatização do acervo.
Após cumprir alguns compromissos estabelecidos anteriormente, como a retrospectiva dedicada ao pintor Raphael Galvez, morto recentemente, ou a mostra de arte italiana entre- guerras, que ocorre em maio, ele pretende partir para outras frentes de batalha. E não faltam projetos para esse baiano, nascido há 58 anos em Santo Amaro da Purificação. "É preciso ter a coragem de mudar, em vez de fazer as coisas de forma burocrática e mecânica", diz Araújo. Para ele, dirigir um museu, realizar uma obra de arte, editar um livro ou organizar uma exposição são a mesma coisa, fazem parte do mesmo ato criativo. Além da escultura, que continuou produzindo paralelamente ao trabalho no museu, Araújo tem uma série de projetos. Em primeiro lugar, ele já assumiu a curadoria - dividida com Frederico Pernambuco de Mello - do segmento de arte popular da Bienal sobre os 500 anos do Descobrimento, que ocorrerá no primeiro semestre do ano que vem.
Nessa ocasião ele promete mais uma vez reeditar a magia com que costuma encantar o público que frequenta as exposições que organiza. Foi o caso, por exemplo, da mostra "Universo Mágico do Barroco Brasileiro", cujo ambiente místico acabou fazendo com que o público entrasse em sintonia com o tema da exposição. Houve até casos de pessoas que se ajoelharam ou choraram diante das imagens sacras.
Ele se lembra que em uma exposição sobre Mário de Andrade, os visitantes começaram a colocar dinheiro, fotografias e pedidos em um barquinho referente a Macunaíma. Segundo ele, "os brasileiros não têm porque ser cartesianos". Na verdade, o que "precisamos é de uma carga emotiva que conquiste e seduza o público", afirma.
Outros projetos de Araújo são a fundação de um centro de estudos sobre cultura afro-brasileira e a luta pela criação de um museu que abrigue as obras de importantes coleções particulares. Segundo ele, esse museu do acervo poderia ser instalado no Pavilhão Manuel da Nóbrega, no Parque do Ibirapuera, que ficou algum tempo sob os cuidados da Pinacoteca e agora foi restituído à Secretaria Estadual de Cultura.
Araújo acredita ser possível reunir esses acervos utilizando procedimentos como comodato - "tendo um espaço adequado o colecionador pode sentir-se estimulado a doar" -, compra ou empréstimos que permitam realizar interessantes exposições esporádicas. Dessa forma, ricas coleções como as de Adolpho Leirner não correriam o risco de serem desmanteladas com o passar do tempo. "Em vez de ficar num depósito, as obras poderiam correr o Brasil, de visitar cidades cujos habitantes jamais tiveram a oportunidade de ver um Portinari de perto".


