Gertrude Stein e o óbvio da vida
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 30 de dezembro de 2010
Noemi Jaffe<BR>Folhapress 
Se a heteronomia - assumir que alguém sempre é também outra pessoa - ainda é minimamente velada em ''A Autobiografia de Alice B. Toklas'', dado o título um pouco farsesco, em ''Autobiografia de Todo Mundo'', recentemente relançado pela Cosac Naify, não há mais espaço para disfarce algum. Gertrude Stein (1874-1946) são todas as pessoas de quem ela fala e com quem ela convive.
Quem sabe todos eles também não sejam um pouco a própria Gertrude Stein?
Afinal, esta colagem de humanos, acontecimentos e lugares se revela também na própria linguagem cubista da narrativa, em que quase tudo está e é todo o resto e todos os lugares podem ser também os outros lugares.
O que a narrativa aparentemente infantil de Gertrude Stein nos revela, neste livro em que passam Picasso (1881-1973), Picabia (1879-1953), Chaplin (1889-1977), Dashiel Hammet (1894-1961), da mesma forma como o carteiro, a vizinha e as criadas, é que, muitas vezes, a vida não é mais nem menos do que simplesmente o óbvio. ''Se você vence você não perde e se você perde você não vence.''
Parece risível, mas dentro de um contexto narrativo de tanta convicção, repetição e dinâmica temporal e espacial das obviedades, vamos nos dando conta de que o óbvio é justamente aquilo que precisamos esconder ou embelezar, para depois cairmos justamente nele.
Gertrude Stein não tem pudores formais nem morais. É bom ter dinheiro, é bom ser famoso, é bom ter amigos e pode ser bom ser avarento. Uma espécie de companheiro do Manifesto Antropófago, que também sabia declarar: ''Só me interessa o que não é meu. Lei do homem. Lei do antropófago.''
É disso que se trata esta autobiografia - com tradução excelente de Júlio CastaÀon Guimarães. Cada um é o ladrão de todos e vice-versa; e é por isso que é bom estar vivo.
Numa pontuação caótica e livre, Gertrude Stein conta sobre a vida em Billignin junto com a amante Alice B. Toklas, sobre a repercussão de seu livro anterior, sobre a ida aos Estados Unidos e, principalmente, sobre a companhia de seus amigos conhecidos e desconhecidos. ''Todos sabem que se você é muito cuidadoso, você fica tão ocupado em ser cuidadoso que pode estar certo de tropeçar em algo.''
Talvez Gertrude Stein não tropece e seu fluxo corra livremente, porque não é o cuidado o que a caracteriza, mas a coragem de destravar os escrúpulos da linguagem e de uma certa moral da correção. Se agora, em 2010, esta ainda é uma postura difícil, imaginem na Paris pré-guerra de 1937.
Serviço:
- Autobiografia de Todo Mundo
Autora - Gertrude Stein
Editora - Cosac Naify
Tradução - Júlio CastaÀon Guimarães
Quanto - R$ 75 (360 págs.)


