Gérin: o londrinense premiado como Melhor Ator em Brasília
Morador da periferia de Londrina, ator acaba de receber o troféu Candango, um dos mais importantes do cinema brasileiro
PUBLICAÇÃO
sábado, 03 de outubro de 2026
Morador da periferia de Londrina, ator acaba de receber o troféu Candango, um dos mais importantes do cinema brasileiro

Rogério dos Santos, conhecido como MC Gérin Black - @mc_gerinblack - acaba de fazer sua estreia no cinema no curta-metragem "Cana." Em grande estilo, o londrinense recebeu o prêmio de Melhor Ator no 59º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro. Dirigido e escrito por Guilherme Xavier Ribeiro e Daniel Rone, "Cana" também foi premiado como o melhor curta-metragem pelo júri oficial e recebeu o Prêmio da Crítica Abraccine de Melhor Curta-Metragem, concedido pela Associação Brasileira de Críticos de Cinema e o prêmio Canal Brasil de Curtas. Guilherme Xavier Ribeiro e Daniel Rone também foram premiados pela Melhor Trilha Sonora. "Cana" vai estrear no Canal Brasil em 2027. Até lá, poderá ser visto no circuito de festivais de cinema.
Surpreso e muito contente com o resultado, Rogério dos Santos, 24 anos, contou em entrevista à FOLHA que ainda está sem acreditar no feito. "O personagem aparentemente sou eu mesmo: esse preto periférico que perdeu o pai cedo, que está na luta. Sou artista, MC e diante da opressão, racismo e desigualdade, sigo na fé", afirma. "Poxa vida, é minha primeira vez em um filme e ainda protagonista. Fiquei feliz demais com isso", divide. Diante do talento, recebeu também o convite para interpretar o escritor João Antônio, longa-metragem da produtora Kinopus.
TRAJETÓRIA E PERSPECTIVAS
Morador da ocupação Aparecidinha, no Jardim São Jorge, em Londrina, sua trajetória na arte começou pela dança e, ao longo dos anos, também se expandiu para a música, o ensino e a criação artística. "Acredito na arte como espaço de expressão, transformação e construção de futuros", acrescenta."Comecei na dança contemporânea aos oito anos de idade, no projeto Faces de Londrina, onde permaneci de 2010 a 2016. Foi o projeto que me deu a certeza do que eu queria no mundo da dança", recorda.
Em 2016, tornou-se bailarino bolsista e membro da Cia e Escola Conservatório de Artes Londrinense, onde aprofundou sua formação técnica e ampliou suas experiências com criação, performance e estudo do corpo. Dentre os trabalhos recentes que destaca estão sua atuação como ator e bailarino em “Respiro”, da Banda Sálvia. "Em 2023, atuei como professor de Jazz Dance no Colégio Marista, em parceria com a Escola Nádia Essada. Foi uma experiência importante para minha trajetória como educador, compartilhando conhecimento através da dança com crianças e adolescentes", alegra-se.
Em 2025, integrou a apresentação de estreia do Ballet Alma Negra, no Cine Teatro Ouro Verde, em Londrina, período em que também atuou como bailarino convidado do projeto Ciranda da Dança, realizando apresentações em escolas nas cidades de Assis/SP e Cândido Mota/SP. Outra experiência marcante para o bailarino foi com alunos do curso de Educação Física. "Ministrei uma aula prática para estudantes do primeiro ano de Educação Física da UNOPAR, falando sobre a relação entre dança, movimento e sistema nervoso central. Sigo em constante aprendizado, evoluindo como artista, educador e ser humano. Meu propósito é continuar usando a arte para transformar vidas, assim como ela transformou a minha."
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PERSONAGEM E VIDA REAL
O diretor e roteirista Guilherme Xavier Ribeiro relata que a revelação de Gérin se deu por meio da produtora do elenco, Julia Daniel. "Julia é bailarina e coreógrafa e o conhecia pelo balé de Londrina, pois havia dançado com Gérin num espetáculo da companhia Isabel Gusman, de Assis-SP. Certa vez, enquanto estávamos fazendo pesquisa de elenco, ela nos mostrou um vídeo de Gérin cantando um funk autoral num bar de sua comunidade. A letra e a melodia da música que cantava tinha um sentimento muito próximo daquilo que o personagem do curta-metragem "Cana" carregava: as denúncias de violência policial, da desigualdade de oportunidades e a fé de que essa realidade seria superada. Isso nos tocou profundamente, e veio daí o convite", relata.
Antes das gravações de "Cana", o ator permaneceu duas semanas em preparação, em Assis-SP, adaptando a construção da personagem às vivências que o próprio Gérin já carregava. Ribeiro explica que foi uma troca muito rica, onde produziram músicas, conversaram sobre questões da sociedade e, progressivamente, foram mergulhando no universo do filme. "Gérin já tinha um trabalho de corpo muito bonito, resultante de toda sua trajetória na dança, e nossa troca acabou se concentrando em questões temáticas, políticas, e na calibragem do tom do personagem", pontua o diretor.
No curta, a personagem de Gérin leva o mesmo nome do ator. No filme, carrega consigo um ressentimento próprio de quem passou a vida toda sendo oprimido pela desigualdade social e pela violência policial contra pessoas pretas e periféricas. Enquanto está na estrada, a bordo de uma caminhonete com seu parceiro Silas - interpretado pelo ator Silas Pinheiro - vai sendo atormentado pelo medo de que essa história se repita no caminho.
Conforme avançam pela estrada, revelam medos e desejos do que pode acontecer no caminho, até que se deparam com o aviso de uma blitz à frente. Parados numa cidade abandonada, precisam decidir se seguem viagem, enfrentando o medo da violência policial, ou se ajudam as diversas crianças abandonadas que começam a rodear a caminhonete.
"Quando encontra com dezenas de crianças que, assim como ele em sua infância estão aprisionadas pela imobilidade social, pelo racismo, e pelas barreiras policiais, concretas e simbólicas, Gérin transforma sua dor individual em causa coletiva, e logo seu ressentimento se traduz em revolta", narra. Gérin abre mão do que conquistou para libertar a todos. No discurso, "Ou passa todo mundo, ou não passa ninguém".

TROFÉU CANDANGO: UMA HONRARIA
No entendimento de Ribeiro, a premiação pode ser atribuída porque o ator conseguiu sensibilizar o público com a verdade que colocou em cena. "Seu mergulho na personagem e seu repertório para tratar de questões tão sensíveis e urgentes ficou evidente na tela. Esse sentimento, sobreposto ao seu talento e trabalho de corpo desenvolvido ao longo de anos de dança, possibilitaram que ele desempenhasse uma atuação única e impactante", celebra. "O tradicional troféu Candango é uma das honrarias mais importantes do cinema nacional", acrescenta.
De seu ponto de vista, a revelação de talentos como Gérin Black contribui para a representatividade de Londrina e do interior na produção cinematográfica e é a prova de que existe muito talento a ser evidenciado no Brasil profundo. "Que sirva como um dos exemplos aos agentes da indústria cinematográfica que buscam manter sua reserva de mercado e a hegemonia de produção no eixo Rio-SP, e que também fortaleça os movimentos que estão lutando pela descentralização", pensa.
A respeito da linguagem cinematográfica e papel fundamental para traduzir dores históricas, o roteirista e diretor compreende que o cinema traz para a sociedade uma contribuição importante, pois podemos imaginar um mundo, e a partir do trabalho e da articulação de pessoas, transformá-lo em realidade. "Um filme é uma realidade imaginada, seja ela fantástica, realista, épica, farsesca, entre tantas possibilidades de exploração da linguagem. Se podemos nos organizar para produzí-la, podemos fazer o mesmo enquanto sociedade, para transformar o sistema econômico, político, visando a superação das dores históricas. A arte nos instiga à imaginação, que é o ponto de partida de toda transformação", expõe.
EXPRESSÃO NACIONAL
Filmado no Oeste Paulista e realizado a partir de uma rede de profissionais formada no interior de São Paulo e Paraná, o filme conquistou cinco prêmios na cerimônia realizada no Cine Brasília, no dia 19 de setembro.
Com o prêmio de melhor ator para o rapper e bailarino londrinense Gérin Black, trata-se da terceira vez que um londrinense é premiado em Brasília. A primeira foi em 1986, quando o músico Arrigo Barnabé conquistou o Candango de Melhor Trilha Sonora pelo longa ‘Vera', de Sérgio Toledo. Em 2013, Artur Ianckievicz conquistou o prêmio de Melhor Som para o curta ‘Sylvia', que ele mesmo dirigiu.
Já o prêmio de melhor ator para Gérin Black representa o segundo prêmio de destaque nacional para um ator londrinense: em 2005, a atriz nipo-brasileira Aya Ono, radicada em Londrina há décadas, conquistou o Kikito de Melhor Atriz Coadjuvante pelo filme ‘Gaijin 2', de Tizuka Yamasaki, no Festival de Cinema de Gramado.


Walkiria Vieira
Repórter de Cultura, Educação e temas sociais.





