Uma ópera com teatro e dança, encenada em um museu. Assim é a nova produção do diretor Gerald Thomas, ‘‘Raw War’’, que estreou ontem no Museu de Arte Moderna de Bonn, na Alemanha.
O libreto é uma colagem de textos dos alemães Ernst Junger e Carl Von Clausewitz. A música foi feita em cima desses textos por Paulo Chagas, um músico brasileiro radicado na Alemanha há 20 anos. A ópera fala das origens da guerra e de todos os tipos de conflitos já feitos até hoje. Coloca em voga o espírito guerreiro do ser humano e o fato de que o duelo, a competição e a sobrevivência humana nada mais são do que uma guerra.
‘‘O título original era Ogun, mas eu sugeri Raw War (guerra crua), que, se invertida, forma a mesma frase’’, diz Thomas. ‘‘A ópera, na verdade, tem todos os sentidos trocados.’’ A inversão é notada logo na primeira cena, em que uns hippies - que sempre pregaram o ‘‘faça amor, não faça guerra’’- torturam soldados presos.
O Ogun, deus da estrada, do ferro, do metal e da caça, aparece e desaparece como se fosse um vulto. É um ser que, assim como o holandês voador da ópera ‘‘Navio Fantasma’’, de Wagner, habita outro território.
Quando resolve ficar na terra, é preso e levado a um campo de trabalho forçado. Com os olhos vendados, ele é obrigado, sob a mira de armas, a fazer flexões de braço. ‘‘É uma cena provocante em que soldados de uma Alemanha branca apontam espingardas para um negro’’, diz Thomas. Ogun passa a ser vítima e se torna vulnerável no meio de uma sociedade capitalista que guerreia por meio das máquinas.
Apesar da crítica feita pelo diretor, a ópera se utilizou muito do computador. Regidos pelo maestro Lothar Konigs, um tenor, um barítono e três sopranos têm suas vozes amplificadas. No palco, não haverá instrumento acústico. Os sons são todos computadorizados. Além disso, a ópera, cantada em alemão, começou a ser dirigida pela Internet. Segundo Thomas, a posição dos oito atores no palco, a iluminação e as alterações no cenário foram feitas ‘‘virtualmente’’. Ele foi para a Alemanha somente no início de maio, para dar os retoques finais à produção.
O elenco, composto por alemães, norte-americanos, suecos e húngaros, além do bailarino africano que interpreta Ogun, contracena em um cenário que é um enorme deserto. Nele há 20 televisores que ficarão mostrando, durante o espetáculo, diferentes canais. Para o diretor, a guerra virou um espetáculo que as pessoas podem ver pela televisão. Vem desse pensamento a escolha do cenário.
A ópera fará seis apresentações na Alemanha e depois seguirá para Nova York. No ano 2000, Thomas pretende trazê-la ao Brasil.

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