Gerald Thomas discute a cinematografia americana
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domingo, 28 de novembro de 1999
Por Luiz Carlos Merten 
São Paulo, 28 (AE) - Cinéfilo assumido, Gerald Thomas também é auto-irônico: o cinema impregna tanto seu trabalho no teatro que os detratores já proclamaram alto e bom som: "Por favor, dêem uma câmera ao Gerald." O autor, dramaturgo e encenador identificado sempre com um teatro de propostas e idéias tem um encontro marcado amanhã à noite: às 20 horas, na Sala Cinemateca, em São Paulo, entre duas exibições de "A Bruxa de Blair" (às 18 e 22 horas), Thomas conversa com o público. O assunto - as novas tendências do cinema americano.
Há tempos que a Sala Cinemateca queria promover esse bate-papo com Thomas. Inicialmente, propuseram-lhe que debatesse "Uma Rua Chamada Pecado", o filme que Elia Kazan adaptou da peça "Um Bonde Chamado Desejo", de Tennessee Williams. O projeto não foi adiante. Amanhã, finalmente, Thomas está disponível para conversar.
Ele avalia o atual panorama americano. Quer discutir o underground, o espectro que vai de Kenneth Anger a John Waters, para mostrar que Hollywood, o grande sistema, está sempre se apossando do pequeno sistema. Waters é um bom exemplo. O ex-maldito foi cooptado pela indústria. Thomas não chega a considerar David Fincher (de "O Clube da Luta") underground ou mesmo um grande cineasta, mas vê sua integração ao sistema hollywoodiano como outro exemplo do que quer dizer.
Thomas não preparou um texto para esta noite, mas tem certeza de certos tópicos que vai desenvolver. Os filmes "Kids" e "Vivendo no Abandono", o inédito Being John Malkovich, que ele define como uma mistura de Woody Allen e Luis Buñuel editada por um discípulo de Ken Russell (enfant terrible inglês dos anos 60 e 70), o diretor e roteirista John Sayles e o Dogma com certeza estarão na pauta. Mas Thomas não pretende ficar só nisso. Interessa-lhe também discutir o cinema de ação de Hollywood. Thomas vê nesse cinema repleto de explosões e efeitos especiais um traço forte da identidade do americano, que se exprime pela ação, até como forma de reagir à inércia que identifica com o europeu (que já foi colonizador da América).
Embora fã de cinema (e assumidamente influenciado por ele), Thomas acha que cinema e teatro não se cruzam. São experiências diversas, mas ele acrescenta que o amor por qualquer outra forma de manifestação artística pode enriquecer o próprio trabalho. Cita exemplos: "Bob Wilson é influenciado pela pintura; eu também." Já tentou o cinema: dirigiu, nos anos 80, um filme baseado em Jorge Luis Borges. Chama-se "O Outro e Eu". Um típico labirinto borgiano, o escritor conversando consigo mesmo. Um fracasso, define. Está na cidade preparando "Ventriloquista", que estréia dia 16 no Sesc Vila Mariana. Thomas antecipa que será uma de suas experiências mais radicais em teatro. Enquanto "Ventriloquista" não chega, ele discute "A Bruxa de Blair". Só para constar. Acha que as idéias são ótimas, mas o filme é insuportável. Para saber o porquê, o endereço é só um. A Cinemateca.


