Gerald Thomas abre 2ª semana do Festival de Curitiba19/Mar, 14:07Por Beth Népoli Enviada especialCuritiba, 19 (AE) - Depois de algumas trocas de datas, horários e até das peças inicialmente programadas, Gerald Thomas estréia amanhã (20) o espetáculo "Coro e Camarim, uma Tragédia Rave", no 9º Festival de Teatro de Curitiba, abrindo a segunda semana de uma programação iniciada na quinta-feira. Até domingo, data prevista para o encerramento do festival, 69 peças devem passar pela cidade, entre mostra oficial e paralela, num total de 321 apresentações em 32 espaços teatrais. Amanhã, na mostra oficial, os espectadores terão que optar por assistir ao mais novo espetáculo de Gerald Thomas ou "Henrique IV" também estreando na mesma noite, no mesmo horário, às 21h30. E vai ser preciso dormir mais tarde para assistir a "Ventriloquist", a outra peça trazida por Thomas, que, de acordo com o último acerto entre a organização do festival e o diretor, será apresentada amanhã e terça-feira à meia-noite. A previsão inicial era a de que Gerald participaria da mostra oficial com duas estréias "Coro" e "Camarim". Há duas semanas o diretor decidiu fundi-las num único espetáculo. "Faltou tempo e dinheiro para fazer as duas", diz Thomas. "O festival não produz espetáculos e não aceitou minha proposta inicial de levar o 'Ventriloquist' para Curitiba". Victor Aronis, diretor do festival, admite a recusa, num primeiro momento, de "Ventriloquist", por uma questão de coerência com a linha que orienta a escolha da programação na mostra oficial: o investimento em estréias. "Havíamos lido a notícia de que Gerald estava preparando esses dois espetáculos e por isso entramos em contato com ele, que topou participar com duas estréias", diz Victor. "Depois ele ligou dizendo que iria fundir as duas em "Coro e Camarim, Uma Tragédia Rave" e trazer "Ventriloquist", e também concordamos", afirma. "Eu não podia prever o sucesso de "Ventriloquist" no Rio", conta Gerald. Concebida para o Sesc São Paulo a peça sofreu alterações na temporada carioca ganhando até um texto gravado pelo cineasta Cacá Diegues especialmente para o espetáculo. "Considero 'Ventriloquist' um dos melhores trabalhos de minha carreira", diz Gerald. "As pessoas o estão comparando a 'Electra com Creta', meu espetáculo de maior sucesso aqui". As alterações tomaram o tempo. Por isso, três dias antes da apresentação no festival Thomas - que cria seus textos durante o processo de ensaio - afirmava ainda não ter terminado a peça. "Nos ensaios de 'Coro e Camarim', Gerald joga um tema na roda e grava a discussão entre o elenco; no dia seguinte traz um texto, de sua autoria, escrito a partir do debate", diz o ator Marcos Azevedo que há cinco anos integra a Cia. de àpera Seca. "Para os atores esse é um processo de criação muito legal, porque tudo fica muito orgânico", afirma Azevedo. "O ego, a utopia, a forma como as pessoas se apresentam são alguns desses temas" ,diz Thomas, que garante não estar criando um espetáculo para discutir a arte, como o título sugere. "De jeito nenhum", diz. "Tem a história de um crime em cena". Numa festa rave, uma mulher (Camila Morgado) sente-se culpada por ter matado uma drag queen e pede para ser julgada, mas ninguém quer assumir esse papel. "Não existem mais leis, não existem mais parâmetros para julgamentos", diz Gerald. "Meu personagem é um doidão, cheio de tatuagens pelo corpo que fica o tempo todo deitado do sofá esperando Madona chegar", diz Azevedo. "Dos vãos do sofá ele vai tirando suas lembranças, restos de suas utopias", antecipa o ator. Enquanto o elenco interpreta a fauna desta festa num tipo de representação distanciada - o coro - a atriz Fabiana Guglielmetti vive uma mulher presa no banheiro - o camarim. "Ao contrário dos outros sua atitude é artaudiana, ela se desespera", diz Thomas. Num dado momento da peça, ela interage com o coro. "Nesse momento tudo muda", adianta Thomas. Os atores começam a discutir o fato de eu não ter criado um fim para a peça. "Eu não estou pirando, estou pirandelliando", brinca o diretor fazendo referência ao dramaturgo italiano Pirandello, autor de "Assim É se lhe Parece", que discute em suas peças os limites entre ficção e realidade. Uma festa na qual já rolou de tudo, um espécie de metáfora da ressaca coletiva do fim de século, também é cenário em "Ventriloquist", que termina num grande desfile de moda. "Fashion virou filosofia; só o que importa hoje é como as pessoas se apresentam". Antes mesmo de chegar à cidade, o nome de Gerald Thomas já estava no palco, num dos "cacos" (palavras ou frases não criadas pelo autor) acrescentados por Antônio Abujamra na sua concepção operística da peça "Crimes Delicados", de José Antônio de Souza. Abu batizou de Geraldo Thomas um cachorro "assassinado" pela personagem interpretada por Nicette Bruno. Paulo Goulart e Bárbara Bruno completam o elenco da peça mais procurada pelo público na primeira semana do festival, atraindo a praga dos cambistas para a entrada do Guairinha.