Na época, foi uma revolução. Ninguém apostava que guitarras altas, poluídas de riffs horrendos, chegasse ao topo das paradas. Ninguém dava a mínima para a barulheira urdida nos porões do noroeste americano, até que o Nirvana pôs o mundo para entoar seus refrões.
Nirvana virou fenômeno de mercado transformando rock alternativo em estilo palatável até para programadores de FM-babona. Na garupa, toda uma safra de bandas emergiu dos porões a partir do selo Sub Pop, lar do que viria a ser conhecido como ''grunge''. O selo da cidade de Seattle reinou durante toda a primeira metade da década de 90 atraindo a cobiça das grandes gravadoras, sedentas para pilhar o ouro de seu catálogo.
Dez anos depois, a Sub Pop deixou de ser hype. Mas continua ativa ostentando um catálogo nada desprezível que inclui álbuns de bandas como Sunny Day Real State, Sebadoh, Reverend Horton Heat, Shins e Vaselines. É essa mina que começa a ser disponibilizada em grande escala no Brasil através de um contrato de licenciamento de títulos assinado pela gravadora Trama.
O pacote de lançamento chegou às lojas esta semana estampando a marca ''Die Young, Stay Pretty'', em vez de Sub Pop, nas capinhas. O motivo é que o nome original não pode ser utilizado no Brasil por já pertencer ao Studio Tan, que o teria registrado em 1991, adquirindo os direitos autorais sobre a comercialização de seus produtos. Na época, o Studio Tan chegou a lançar CDs das bandas Mudhoney e Tad.
Mudhoney está presente no pacote inaugural da Trama com o seminal ''Superfuzz Bigmuff (Plus Early Singles)'', uma união do EP de estréia do grupo com os lados A e B dos primeiros singles e covers do The Dicks e Sonic Youth, tudo lançado entre 1988 e 1989. O título do disco empresta os nomes dos pedais de efeitos favoritos de Mark Arm (vocal e guitarra) e Steve Turner (guitarra e vocal).
A influência dos Stooges grita em faixas como ''Touch Me I'm Sick'', ''You Get It (Keep It Outta My Face)'' e ''In 'N' Out of Grace''. Mudhoney, aqui, tortura tímpanos delicados com berros raivosos, acordes de chiqueiro e volume obsceno. Revela-se um rebento exemplar do cruzamento entre punk e hard com profunda atitude de garage band que caracterizou o grunge. No mercado americano, acaba de sair o novo ''Since We've Become Translucent'', o oitavo álbum da banda e o primeiro sem o baixista Matt Lukin, que caiu fora há três anos.
Além do Mudhoney, a fornada nacional destaca os Supersuckers e o Afghan Whigs. O primeiro chega com a coletânea ''How The Supersuckers Became The Greatest Rock & Roll Band In The World'', composta de 27 faixas, divididas entre um bloco de ''melhores momentos'' garimpados de seus álbuns e outro bloco reunindo raridades, covers e lados B.
Originários de Tuscon, seus músicos ganharam fama de junkies e farristas. As ilustrações do encarte do CD reforçam a lenda, mostrando os caras vendendo a alma ao diabo para obter cocaína, pílulas e mulheres. Liderado por um sujeito chamado Eddie Spaghetti, o grupo executa um rock'roll básico emprestando velocidade do punk e fazendo concessões aqui e ali à country music.
Completando o pacote, o CD ''Congregation'' traz talvez o grande registro da carreira do Afghan Whigs. Saudado como obra-prima do grunge, o disco inclui ''Conjure Me'', canção de melodia aderente e intensidade vocal. Neste repertório, o magnético front man Greg Dulli ainda não havia orientado o som do grupo para o r&b e o soul que marcariam seus álbuns posteriores.
As faixas remetem o ouvinte a bandas como Replacements e Dinosaur Jr. Greg Dulli surpreende com interpretações doloridas, torturadas. É um dos heróis de sua geração.

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