No universo de sucesso, fãs e rebeldia inspirado pelo Beatles, George Harrison se destacou por características próprias que, inicialmente, não atingiam os patamares de Paul MacCartney e John Lennon, líderes da "banda mais famosa do mundo."

Harrison "ficava na dele", enquanto os compositores mais conhecidos do quarteto brilhavam tanto pelo talento quanto pelo comportamento. Ora pela rebeldia de John, aquele que disse que "os Beatles eram mais populares que Jesus Cristo", ou pelo bom mocismo de Paul que nunca ousou muito, mas soube manter, até hoje, a aura de grande compositor.

Nascido em 25 de fevereiro de 1943, já faz 25 anos que George Harrison morreu, em 29 de novembro de 2001, devido a um câncer de pulmão e cercado de misticismo até o fim.

Conta Olivia Harrison, sua última esposa e mãe de Dhani Harrison, que no momento da morte de George um clarão invadiu seu quarto, como se o seu espírito ascendesse para outro mundo. Este depoimento está no documentário "George Harrison: Living in The Material World" (2011), dirigido por ninguém menos que Martin Scorcese. Os depoimentos de Olivia no documentário não trazem apenas este detalhe que parece se encaixar na espiritualidade que George buscou em vida. Olivia é dona de uma tranquilidade que transcende a vida pregressa de sexo, drogas e rock'roll que cercava as celebridades nos anos 1960 e 1970. Harrison integrou esta fase com alguma discrição, mas também como membro ativo do embalo daqueles anos loucos.

George Harrison foi cercado de música e misticismo até o fim
George Harrison foi cercado de música e misticismo até o fim | Foto: Wikimedia Commons/ Domínio público

O 'BEATLE QUIETO'

Harrison era chamado de "o beatle quieto", o que não significa que ocupasse um lugar menor que os outros, mas sua participação como compositor muitas vezes não se evidenciava tanto nos álbuns dos Beatles como as de Lennon e McCartney. "Taxman", de sua autoria, está no álbum Revolver, de 1966, com um conteúdo político na letra que critica os impostos cobrados pelo governo trabalhista de Harold Wilson.

Mas foi por caminhos menos convencionais que seu talento foi comprovado. Ao tomar contato com as filosofias orientais e mergulhar, mais que os outros, no hinduísmo - uma das religiões mais antigas e complexas do planeta - Harrison parecia ter encontrado não só seu lugar musical, mas no mundo. "Within You Without You", incluída no álbum Sgt. Pepper's Lonely Hearts Club Band (1967), é um vislumbre do mergulho profundo de Harrison no hinduísmo presente desde os primeiros versos: "Estávamos conversando sobre o espaço entre todos nós/ E as pessoas que se escondem atrás de um muro de ilusão."

O muro de ilusão é aquele preconizado na filosofia indiana como "maya" e significa que o mundo que conhecemos não existe, é um equívoco ou uma miragem cósmica que esconde a verdade suprema, num universo que não atingimos a não ser pela devoção.

Com Harrison tocando violão, guitarra e cítara, a música envolve o ouvinte numa atmosfera de espiritualidade, como se erguesse uma fumaça invisível de incenso em seus acordes.

Outra canção que corre com solos de guitarra instigantes é "Give me Love", invocando amor, mas no sentido terreno.

Mas foi com "My Sweet Lord" - do álbum All Things Must Pass (1970) - que Harrison entregou definitivamente sua música aos louvores do hinduísmo, impregnando o ocidente com um refrão que fez a cabeça de muita gente rumo à Índia, um país distante que entrou no cotidiano de fãs que ouviram e cantaram a música à exaustão.

Há uma controvérsia sobre a autoria de "My Sweet Lord" que foi considerada um plágio de "He's So Fine", das The Chiffons. Na disputa por direitos autorais, a música de Harrison acabou sendo considerada um "plágio inconsciente" num processo encerrado em 1981.

O BRILHO DAS COMPOSIÇÕES

Outras músicas denotam o talento absurdo de Harrison: "While My Guitar Gently Weeps", "Here Comes the Sun" e "Something" estão entre as melhores composições do século 20. A última, feita para Patty Boyd, sua primeira mulher, é reconhecida como uma das grandes composições de amor do rock.

Patty também seria a musa inspiradora de "Layla", composta por Eric Clapton que se apaixonou perdidamente pela mulher de Harrison, de quem era amigo. Uma amizade que, apesar da rivalidade amorosa, sobreviveu ao tempo. Clapton é um dos grandes intérpretes de "While My Guitar Gently Weeps", um hino à guitarra, instrumento que os dois tocaram juntos magistralmente e que é marca registrada da carreira de ambos em composições inesquecíveis.

A aniversário de George Harrison é lembrado neste 25 de fevereiro no Instagram de Olivia Harrison - @oliviaharrison - onde milhares de fãs prestam homenagens ao ex-beatle com mensagens como "Happy Heavenly Bday, wonderful George!! Hare Krishna!

A saudação a Krishna, o deus indiano, aparece com ícones de corações e mãos postas numa celebração de aniversário que denota uma espiritualidade que faz parte da memória de George Harrison tanto quanto suas músicas.

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