São Paulo, 10 (AE) - O trailer e os cartazes de "Três Reis" preparam o espectador para mais uma atmosfera de guerra. A abordagem, no entanto, está mais para "M.A.S.H." do que para "O Resgate do Soldado Ryan". O nome grafado na cadeira de diretor, David O. Russel (da comédia Procurando Encrenca), explica o humor negro e a sagacidade do roteiro, daqueles que exigem do público disposição para mergulhar nas entrelinhas.
A sinopse do filme que estréia amanhã (11) pode sugerir uma aventura banal, digna da Sessão da Tarde: três soldados norte-americanos descobrem no Iraque, no fim da Guerra do Golfo, um mapa que promete levá-los a um tesouro escondido. Só que no desenrolar da trama o espectador tem a chance de conhecer a versão não-oficial do conflito, uma consequência da guerra que os americanos preferiram ignorar. Humor negro - A trajetória do trio de soldados liderado pelo ator George Clooney revela o que ocorreu com os civis iraquianos com o cessar-fogo, em março de 1991. Eles foram encorajados pelo então presidente George Bush a lutar contra Saddam Hussein, mas, quando o ditador foi expulso do Kuwait, os EUA saíram de cena e deixaram os iraquianos rebeldes serem mortos pelo exército de seu país.
Dito assim, o roteiro escrito por Russell parece ter gerado um documentário sisudo. Longe disso. A história absorve o humor negro característico do diretor e chega a arrancar algumas gargalhadas da platéia. O que não minimiza a força do filme, que obriga o espectador a sentir a dor das vítimas. Recorrendo ao didatismo visual, Russell obtém o efeito desejado (ou pelo menos chega muito perto). Depois de um tiro, o público acompanha a bala perfurando e se alojando no corpo da vítima - como se aquele pôster das aulas de anatomia, com todos os órgãos à mostra, ganhasse vida. Sensações da platéia - O estilo visual de Russell ainda responde por cenas em câmera lenta, enquadramentos pouco comuns, tomadas de uma mesma cena por diferentes ângulos e estranheza da fotografia - variando do aspecto descolorado à saturação das cores. Tudo para ampliar as sensações da platéia.
A escolha do elenco foi bem-sucedida. O espectador estabelece uma empatia imediata com os soldados, visivelmente perdidos - sem saber exatamente o papel dos EUA nessa guerra e sem entender o que o conflito significa para os nativos. O irregular George Clooney está convincente no papel do primeiro-sargento Archie, aquele que conduz a peregrinação pelo deserto em busca do tesouro, mais precisamente do ouro roubado por Saddam do Kuwait. Mas o filme é de Mark Wahlberg (de Boogie Nights), que confere sensibilidade ao sargento Troy Barlow, que só cai na real e passa a entender os horrores da guerra quando é tomado como refém por soldados iraquianos. A situação, que obriga o soldado a imaginar um bombardeio em sua casa, com mulher e filha recém-nascida dentro, rende diálogos desconcertantes.
Sem saber responder qual o verdadeiro interesse dos EUA na guerra, Troy é forçado a engolir um líquido negro e espesso. Ninguém precisa dizer que é petróleo.

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