GENTE NOSTRA
Zeca Corrêa Leite
De Curitiba
Nada como as cores da Itália para mexer com o sangue dos descendentes, hoje morando no Brasil. A novela que estreou na segunda-feira na Rede Globo, Terra Nostra, de Benedito Ruy Barbosa, praticamente parou o bairro de Santa Felicidade, em Curitiba, antigo reduto dos italianos, que nos últimos anos foi invadido pelas mais variadas nacionalidades. O motivo do interesse, obviamente, era a velha, boa e sofrida Itália, mandando seus filhos para continentes desconhecidos.
Engrossando a audiência da novela estava a família de Germano Franceschini, 74 anos, nascido ali mesmo em Santa Felicidade. O clã uma filha, genro, três netos e três bisnetos agregou-se em torno da televisão para acompanhar o primeiro capítulo de Terra Nostra. Se depender do entusiasmo e da emoção dessa noite, acompanharão a obra até o fim.
Dona Terezinha Franceschini é daquelas mulheres que não se deixam aprisionar pelos melodramas da telinha, mas por ser italiana garante que assistirá ao ambicioso trabalho da Globo. O resto da família faz coro com ela. O genro, Alcides Danker, filho de alemão com italiano, chegou atrasado mas gostou do que viu.
Esta novela traz uma concepção diferente daquilo que a TV quer embutir na gente. Ela mostra a realidade histórica; poucos sabem que o italiano veio substituir o escravo. As dores de amores, encontros e desencontros que naturalmente irão movimentar a trama fazem parte do espetáculo. É preciso enfeitar com romance, concorda. Mas acho muito inteligente o autor mexer com o sentimento, a tradição de um povo.
Entre olhares compenetrados, crianças brincando e mamando, comentários entrecortados Danker insistindo em deixar claro que o italiano da televisão era o paulista; os que vieram ao Paraná tinham uma postura mais altruísta , corria a Terra Nostra.
Vejo isso e parece que estou vendo meu pai, minha mãe, disse Germano. Seus pais vieram do Vêneto, como praticamente toda a população que povoou Santa Felicidade. Saíram de lá com uma mão na frente e outra atrás. Eram agricultores numa terra árida. Eles saíram de lá não porque queriam se aventurar, mas por necessidade. Não tinham como viver, explicou.
Dono da primeira loja de artesanato do bairro, há 29 anos, Franceschini trabalhou duro até ter problemas na coluna. Quando criança acompanhava os pais na lavoura, e entre os anos de 1949 e 1970 ganhou a vida como pedreiro. Orgulhoso, conta que dezenas de casas da Avenida Manoel Ribas, via de acesso à Santa Felicidade, foram erguidas por ele.
Acometido por hérnia de disco, teve que buscar outra ocupação e se deu bem. Dona Terezinha, sempre ao lado dele, movimenta uma loja de R$ 1,99. Estão juntos há 50 anos. A festa das Bodas de Ouro aconteceu na sexta-feira passada, com um jantar para 500 pessoas, no Restaurante Treviso. Os presentes dos amigos ocuparam um cômodo da casa. Entre tantas alegrias do casal, falta a realização de mais uma, que é um antigo sonho pisar em Vêneto, o solo dos ancestrais.
As chamadas da televisão para a estréia de Terra Nostra alimentaram a expectativa da família. Na segunda-feira esse era o comentário geral na comunidade. Falante, seo Germano considerou:
Somos brasileiros, mas temos sangue italiano. Então não vemos a hora de começar a novela, e vai ser dessas de acompanhar do começo ao fim. Hoje Santa Felicidade pára por causa disso.
Ele acredita que cerca de 20% dos italianos ainda seguram a tradição de manter vivo os costumes da pátria de seus ancestrais. Aos poucos esse sentimento se dilui, na sucessão das novas gerações. É inevitável.
Presidente da Boca Maledeta, versão local da Boca Maldita do centro da cidade, continua sendo o líder das festas da uva, do vinho que deixam Santa Felicidade trepidante. A novela com certeza trará novas cores ao brio de se carregar no sangue uma história italiana. Seja como for, os Franceschini poderão ver novamente o primeiro capítulo, quantas vezes quiserem. A filha Maria Marli, discretamente gravou em vídeo, noutro cômodo, a partida dos agricultores europeus em direção à esperança, como retrataram as cenas da TV Globo.Família de descendentes de italianos assiste ao primeiro capítulo de Terra Nostra, novela da Globo parou o bairro de Santa Felicidade na estréia
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