No outono provençal de outubro de 1889, quando vivia no asilo de Saint-Rémy, próximo a Arles asilo para onde tinha ido por iniciativa própria , Vincent Van Gogh escreveu a seu irmão Theo sobre a relação entre suas pinturas e seu estado psíquico: ''Minha mente é absolutamente normal nos intervalos entre as crises, ainda mais do que antes. Durante os ataques é terrível perco a consciência de tudo. Mas isso me lança ao trabalho e à seriedade, assim como um mineiro que está sempre em perigo apressa o que tem a fazer.'' A frase não poderia ser mais clara. A arte é para Van Gogh um instrumento de consciência, de seriedade, de sanidade de reação ao caos.
No entanto, 150 anos depois de seu nascimento, Van Gogh ainda é visto como um artista que expressou sua loucura por meio da arte. Não que as comemorações do museu que leva seu nome, em Amsterdã (www.vangoghmuseum.nl), não venham tentando mostrar o contrário: no ano passado, a grande mostra paralela Van Gogh/Gauguin; neste momento, ''A Escolha de Vincent'', com as pinturas que admirava; e a partir de 27 de junho, Gogh Modern, sobre sua influência na arte posterior.
Mas a maioria das interpretações ainda o vê como um artista em transe, que, como disse Antonin Artaud, parecia criar em convulsões. Artaud, cujo livro sobre Van Gogh será lançado em breve no Brasil, tenta mostrar que as definições psicanalíticas de loucura não valem para a visão intensamente franca de uma arte como a do gênio holandês. Mas essa noção de que sua técnica é como uma extensão direta de sua psique conturbada implica distorções maiores que as coloridas por ele.
Uma das causas dessas distorções sobre Van Gogh é o fato de que, na verdade, ele teve quatro vidas. A primeira foi sua vida sem a pintura. Até os 27 anos, a arte foi para esse filho de pastor protestante apenas a dos quadros e objetos que negociou para seu tio, primeiro em Haia, na Holanda, depois em Londres, na Inglaterra, onde viveu a maior de suas paixões, pela filha de sua locadora, uma paixão frustrada como as outras e que o afetou tanto que o afastou do trabalho. Em seguida, passou um tempo trabalhando sem salário numa escola, e quem o afetou então foi a miséria londrina. Decidido a ser pregador, foi para Borinage, na Bélgica, e chegou a dividir seus poucos bens com os mineiros para quem posava de Cristo. Mas não formou seguidores.
A segunda vida de Van Gogh começou em 1880, quando trocou a missão religiosa pela pintura fervorosa. Perambulando pela Holanda, com ajuda da mesada de seu irmão Theo, retratou camponeses em obras como ''Os Comedores de Batatas'' (1885), vendo com clave barroca muito influenciada por Rembrandt drama e dignidade naquelas vidas simples. No ano seguinte, depois de um período fracassado como estudante da Academia de Belas Artes em Antuérpia, se mudou para Paris e assimilou de modo particular a influência do impressionismo, que já não era tão novo assim, e a do pontilhismo, especialmente o de Georges Seurat, e iniciou sua obsessão pelas gravuras japonesas (ukiyo-e).
Com a mudança para o sul da França em fevereiro de 1888, começou sua terceira vida, a mais curta e a mais intensa de todas. Van Gogh se instalou em Arles e ali, em pouco mais de um ano, pintou nada menos que 200 telas. Decepcionado com Gauguin, com quem tentara fundar uma guilda de artistas, e por não ter vendido nenhum quadro, foi para St. Rémy e ali continuou a produzir em ritmo feérico: 150 telas em um ano. Só saiu de lá porque foi se hospedar na casa do seu patrono e médico, Dr. Gachet, em ''Auvers-sur-Oise'', onde faria uma tela por dia nos seus 70 últimos dias. Ou seja: em sua terceira vida, de meros 29 meses, Van Gogh produziu quase a metade da produção de sua vida inteira.
Depois de sua morte em 29 de julho de 1900, veio a quarta vida. O homem que vendeu apenas um quadro próprio em sua existência se tornou, aos poucos, a imagem por definição do artista moderno. Suas pinturas tomaram a cena cultural com a mesma força com que suas pinceladas recobriram 800 telas e suas obras-primas logo bateram todos os recordes em leilões e ganharam salas especiais nos museus. Sua influência se sentiu na maioria dos movimentos modernos, como esmiuçará o Museu Van Gogh.
Mesmo assim, os mal-entendidos perduram, e no centro deles estão as passagens de uma vida para a outra. Da primeira para a segunda, o pastor teria descoberto a arte como meio de consolação. É uma meia-verdade. Van Gogh via, sim, na arte uma forma de aplacar as angústias, mas não de resolvê-las. Fazia questão de assinalar a presença do infinito, com pinceladas carregadas (''impastos'') que vibram energicamente por toda a superfície; mas queria, como Rembrandt, olhar com ''ternura melancólica'' a condição humana, o vazio interior, sem esperança de comunhão fácil.
Da segunda para a terceira vida, Van Gogh teria encontrado na luz dourada da Provença uma forma de explosão, mais que de expressão. É outra meia-verdade. Ele dizia, também em suas conscientes cartas, que aplicava ''arbitrariamente'' as cores e que para tanto o desenho era fundamental, como modo de organizar a distribuição daquela energia. Van Gogh, como Cézanne, inventou um modo de recombinar linha e cor; ambos recusaram o impressionismo depois de sua fase inicial, porque diluiu demais a linha na cor e se fechou na superfície e por isso Van Gogh preferia Manet, o mais ''clássico'' deles, que negou a abandonar o preto como estruturador da composição.
Em Cézanne, porém, as áreas de cor também servem ao desenho, remetendo
a uma composição prévia, e em Van Gogh as linhas do desenho servem à cor, como se a composição se fizesse naquele momento. Não por acaso sua atração pelas estampas japonesas e sua admiração por Rembrandt. Seu desenho, que nos estudos é capaz das maiores minúcias naturalistas, nas pinturas é gráfico e acentua a urgência do artista em não se render ao caos - e o que se manifesta ali é menos o controle da realidade do que a ardente ansiedade de controlá-lo, menos a ilusão da serenidade do que a persistente preservação de alguma serenidade. Sem sua técnica de desenho, não poderia chegar à ternura melancólica usando cores vivas como o amarelo ouro, o azul cobalto e o verde oliva.
Para ele, nada era mais racional que o trabalho produtivo no contratempo. Sua escolha se fez literalmente clara em sua terceira, breve e fértil vida, aquela que ainda vem sendo a fonte das mitologias sobre seu temperamento e sua obra. Como um girassol, Van Gogh se voltou para a luz não por capricho, mas por necessidade. E foi isso que fez eterna a sua quarta vida.

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