Fale ‘‘gênio’’ e a associação imediata nada genial será a imagem de Albert Einstein de língua de fora e cabelos revoltos diante de uma lousa onde está escrita a giz a equação ao mesmo tempo simples e profunda ‘‘E = mc’’. Uma espécie de precursor do oscarizado John Nash (‘‘Uma Mente Brilhante’’), sempre a um ponto de pirar. Assim, nada mais tentador que a vontade de ‘‘humanizar’’ Einstein, na onda de biografias que tomou o mercado editorial nas últimas décadas. Mostrá-lo como marido, pai, amigo, cidadão, escarafunchar seus defeitos, descrever sua ranhetice ou timidez ou mesmo seu domínio não tão virtuoso da matemática. Sobretudo, claro, mostrá-lo com a mais humana das fraquezas, a paixão amorosa, e as dificuldades de combinar o cotidiano e o intelecto.
Mas o que Dennis Overbye faz em ‘‘Einstein Apaixonado’’ (do original ‘‘Einstein in Love’’, editora ‘‘Globo’’) não é isso, ou melhor, é muito mais que isso. Embora o título dê a entender que se trata de uma biografia ‘‘humanizadora’’ de Einstein, com o subtítulo ainda mais enganador ‘‘Um romance científico’’ (pois não se trata de ficção), o que a leitura deixa ao final é a sensação de ter conhecido um sujeito que, ok, tem suas oscilações temperamentais e hesitações morais que todos nós temos, mas que está anos-luz acima, em termos de capacidade de abstração e também de intuição. Overbye, jornalista e sub-editor de ciência do ‘‘The New York Times’’, fez um trabalho excelente, um modelo para todos que queriam escrever a narrativa de uma vida em que as idéias ocuparam sempre o primeiro plano.
O livro funciona como uma introdução muito eficiente às teses de Einstein, cuja vida conta até a primeira metade, até cerca de 1919, quando Einstein tinha 40 anos. É na verdade uma descrição acessível do desenvolvimento intelectual de Einstein e do papel de sua primeira mulher, Mileva Maric, quatro anos mais velha que ele, nesse amadurecimento não só intelectual. Mas não espere nada ao estilo de ‘‘Tom & Viv’’, aquele filme sobre o poeta T.S. Eliot em que sua mulher Vivienne chega a acrescentar anonimamente, de próprio punho, os versos mais famosos do poema do século, ‘‘The Waste Land’’. Só que no caso de Einstein está claro que Mileva, sua colega de Física em Zurique, Suíça, foi sim sua parceira intelectual naqueles anos de explosão criativa - e não custa lembrar que ele tinha não mais que 25 anos quando a Teoria da Relatividade, a maior revolução do conhecimento moderno, começou a tomar forma em sua cabeça.
‘‘Nunca estive particularmente interessado em Einstein, o homem. Como todos os outros, cresci com a imagem do santo cósmico, cujo único semelhante era Deus’’, confessa Overbye no prefácio. ‘‘Era difícil imaginar que ele tinha sido jovem.’’ Mas aos poucos Overbye – que depois mergulharia numa pesquisa de dez anos para escrever o livro lançado agora no Brasil – descobriu que Einstein tinha sido um jovem bem característico em muitos itens, namorador, rebelde, ambicioso, insatisfeito com as instituições estabelecidas, como a universidade, o casamento e a hierarquia social. Não por acaso a epígrafe da primeira parte do livro é de uma carta dele à irmã, Maja, em 1899: ‘‘Se todos vivessem uma vida como a minha, os romances não seriam necessários.’’ E isso aos 20 anos!
Mas, ao final, o Einstein que surge do livro de Overbye faz lembrar o Darwin da biografia escrita por Adrian Desmond e James Moore: ele tem algo de artista, de poeta; é o dono irrequieto de uma imaginação grandiosa. Isso explica por que Overbye colheu elogios de ninguém menos que Thomas Pynchon, o recluso e pletórico autor de ‘‘Arco-Íris da Gravidade’’, um ficcionista que usa conceitos científicos com grande habilidade: ‘‘Einstein Apaixonado é lírico e exato na recriação do espaço e do tempo, claro e cativante na apresentação das questões científicas, apresentando a história de uma aventura que mudou o mundo.’’ Esse senso de aventura intelectual é o trunfo do livro.
Para os ‘‘iniciados’’, essa aventura tem complemento interessante em outro lançamento, ‘‘O Ano Miraculoso de Einstein – Cinco artigos que mudaram a face da física’’ (editora ‘‘UFRJ’’). O ano miraculoso, claro, é 1905, quando Einstein escreveu sobre as noções de espaço e tempo, fez sua tese de doutorado (Uma nova dimensão das dimensões moleculares) e lançou a idéia de que a luz se constitui de partículas, formulando o que mais tarde seria conhecido como ‘‘Teoria da Relatividade Especial’’ e dando bases para toda a física moderna, inclusive a quântica, da qual morreu ainda descrente. O livro é técnico, composto de terminologias e equações para acesso de especialistas, mas tem uma escrita fluente e ótimos ‘‘contorni’’ explicativos.
O que fascina no pensamento de Einstein, além de sua engenhosidade, é esse caráter exploratório. É como se ele estivesse tateando em busca de conceitos, procurando consistências nas velhas noções científicas e descartando-as ou readaptando-as para novas perspectivas – usando a eletrodinâmica de Maxwell ou a estatística de Boltzmann, mas também a lógica de David Hume e J.S. Mill, para reformular o padrão clássico de modo abrangente e consequente. Filosofia, arte e ciência se juntam para a criação de princípios mais sutis e precisos.
Como Einstein mesmo confessa, ‘‘após sete anos de reflexão (1898-1905), a solução ocorreu-me repentinamente com a idéia de que nossos conceitos e leis do espaço e do tempo podem ter validade somente enquanto estiverem em uma relação clara com as nossas experiências; e que a experiência pode muito bem levar a uma alteração desses conceitos e leis. Pela revisão do conceito de simultaneidade, que lhe concedia uma forma mais maleável, cheguei então à teoria da relatividade especial’’. E as confirmações experimentais aparecem quase como hipóteses, as quais Einstein vislumbrou primeiro em sua cabeça poderosa para depois os homens e a tecnologia comprovarem, desde o desvio da luz para o infravermelho até o recente condensado de Einstein-Bose.
Quem procura um caminho direto para os conceitos de Einstein, e não quer passar pelas idas e vindas amorosas E intelectuais de sua juventude, não deve ler ‘‘O Ano Miraculoso’’ logo. Há livros como o que o próprio Einstein escreveu, explicando sua teoria em linguagem simples, ou o de Bertrand Russell, ‘‘ABC da Relatividade’’; e há a biografia considerada ‘‘definitiva’’, ‘‘Sutil É o Senhor’’, de Abraham Pais (editora ‘‘Nova Fronteira’’), que abrange toda a sua vida mas centra a argumentação em suas teorias. O livro de Overbye, porém, vale a leitura porque consegue, paradoxalmente, captar bem a maneira como o intelecto de Einstein funcionava: quase como um buraco negro, sugando toda a energia ao redor, fosse dos outros, da natureza, dos livros ou dos números.
Overbye consegue mesclar vida e obra sem tirar da mente que a biografia de um cientista tem de ser ‘‘um meio de falar sobre ciência às pessoas’’, como disse em entrevista a Luís Antônio Giron no jornal ‘‘Valor’’. O mesmo jornal, a propósito, antecipou trechos dos diários que Einstein escreveu em sua passagem pelo Brasil em 1925, os quais serão lançados pela editora ‘‘Vieira & Lent’’ no segundo semestre. O Einstein que Overbye descreve repercute nos diários. Extremamente irritado com o calor dos trópicos e a ignorância dos cientistas, ele anotou frases como: ‘‘Muitos discursos com quantidades imoderadas de bajulação untuosa, mas sincera.’’ Desagradável? Mas basta lembrar como qualquer estrangeiro muito ou pouco famoso, de Michael Jackson a Noam Chomsky, é até hoje recebido como messias por aqui.
Não que Overbye não tente ‘‘profanar’’ a imagem de Einstein com certa dose de especulação. Retrata o gênio quando jovem sem deixar de detalhar sua falta de higiene, sua desconsideração social, sua procura voraz de reputação e carreira. Além disso, conta os inúmeros casos que Einstein teve com colegas e sugere que Mileva – que engravidou de Einstein ainda na faculdade, numa época em que o filho de pais não casados carregava a pecha de ‘‘ilegítimo’’ – terminou prejudicada em sua carreira em favor do brilho espaçoso do marido. O individualismo de Einstein às vezes fazia dele, além de marido infiel, um pai algo relapso. Mas o fato é que o gênio normalmente vive num mundo próprio muito intenso, o qual sente que precisa defender; e aos outros essa concentração inevitavelmente parece obsessiva. Há homens tão infiéis e temperamentais quanto Einstein – e nenhum com o intelecto dele.

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