"Genealogias de um Crime" chega às locadoras
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quarta-feira, 12 de maio de 1999
Por Luiz Zanin Oricchio 
São Paulo, 13 (AE) - O chileno Raoul Ruiz, radicado na França, está em evidência porque concorre no recém-iniciado Festival de Cannes com a adaptação do último volume de "Em Busca do Tempo Perdido", chamado de "Le Temps Retrouvé" - "O Tempo Reencontrado". Boa ocasião para conferir seu penúltimo filme, "Genealogias de um Crime", que sai agora em vídeo.
Tudo, nesse autor, é estilo próprio. Ninguém filma como ele. Nem mesmo quando seu cinema, barroco e delirante, mas cheio de rigor, se baseia num fato real. Um fait divers ocorrido nos anos 30, em Viena. Uma psicanalista (lembre-se, eram então os tempos heróicos da invenção de Freud) acha que seu sobrinho apresenta tendências suicidas. A estudiosa resolve acompanhar de perto o parente, que poderia confirmar ou desmentir suas teses a respeito do suicídio. Acaba sendo vítima do seu esforço investigativo.
O nome real da médica é Hermine van Hug e ela foi discípula e amiga de Freud. O caso é largamente conhecido entre os praticantes do métier e serve como advertência. É desses acidentes de percurso causados pelo furor curandi, a ânsia de curar, que pode levar à destruição tanto do paciente quanto do médico. Ruiz leu sobre o caso e entendeu que encontrara um bom ponto de partida para um filme. Não estava enganado.
Como Ruiz não tem a cabeça simples, resolveu acrescentar uma dose extra de complexidade a um caso já em si enrolado. No filme, a personagem central , chamada Solange, é vivida por Catherine Deneuve. Ela é uma advogada, que acaba de perder um filho em acidente, e recebe a incumbência de defender René (Melvil Poupaud), que assassinou sua tia, Jeanne. Sim, Jeanne é a psicanalista em questão e é interpretada, também, por Catherine Deneuve. Há, assim, um desdobramento. Catherine é, ao mesmo tempo, defensora e vítima.
Parece improvável. Mas, não se deixe levar pelas aparências. Não é tanto assim. Ruiz apenas utiliza o tema do duplo, recorrente em literatura como em cinema. Só para lembrar: Borges, Cortázar e Dostoievski foram dois artistas que recorreram ao desdobramento da personalidade em várias de suas obras.
Kieslowski fez o mesmo, na tela, com "Dupla Vida de Véronique". Trata-se de um elemento da narrativa fantástica - imaginar que há um outro por aí, como eu mesmo, agindo paralelamente ou mesmo contra mim. Bom recurso. E, no caso, muito pouco gratuito. Ruiz faz com que a Catherine advogada, Solange, se identifique cada vez mais com a Catherine psicanalista, Jeanne. Ninguém ignora que o processo de identificação seja fundamental na psicanálise. Acontece quando alguém se sente tão fascinado por outro que passa a agir e a sentir como ele. Visto dessa forma, o elemento fantástico dilui-se na explicação racional. Psicanálise - Percebe-se que Raoul Ruiz é muito familiarizado com o universo que retrata. E dificilmente poderia ser diferente para um latino-americano que vive na França. Em Paris, em particular, o domínio psicanalítico parece menos uma especialização terapêutica, como por aqui, e mais um fato de cultura, desses que dizem respeito a todo mundo. Por isso, até recentemente, briguinhas e cisões entre grupos rivais eram notícias em jornais de leitura popular.
Ruiz vai nessa direção e não deixa de lançar farpas contra essas igrejinhas teóricas, que se comportam como seitas fanáticas. O veterano Michel Piccoli interpreta o guru de uma dessas tendências psicanalíticas. Tão fanático que leva seus seguidores ao suicídio, transformando-se assim numa síntese de Jacques Lacan e Jim Jones.
Nada mau, como modelo para um espírito anárquico como o de Ruiz. Juntar o mais brilhante e excêntrico analista contemporâneo e um fanático religioso com tendências suicidas numa mesma figura. No entanto, talvez não sejam as fofocas do meio analítico que mais tenham motivado Ruiz a fazer esse filme. Entrevistado, perguntaram a ele qual era o grau do seu interesse específico pela psicanálise. Limitou-se a apontar para sua vasta biblioteca e dizer que não teria mais de 30 volumes sobre o assunto, ao passo que seus livros sobre o Islã, por exemplo, ocupavam várias estantes.
É possível, portanto, que tenha sido mais atraído pela - com licença do termo - elegância formal do caso verídico. Uma investigadora, cheia de paixão por seu objeto de estudo, é morta exatamente ao tentar comprovar suas teses. Uma mártir da ciência? Não é bem por aí. Interessa mais ao diretor seguir o desdobramento dos fatos. Por isso, a construção do filme parece ter desenho matemático, no qual as estruturas formais se apresentam, desaparecem e retornam mais tarde, transformadas. Solange não é Jeanne, nem uma alucina a outra. Na verdade, uma figura desdobra-se na outra, contém a outra, mas de outro modo. Por isso, a imagem mais simples seria a de uma fuga de Bach. Uma tripla fuga, com um tema principal e dois contrapontos. Autoria - O espectador, mesmo que tenha acompanhado com dificuldade a ação, fica com sensação de fechamento no fim. Aquele apaziguamento que vem depois de uma travessia intelectual compensadora. É a única sensação possível diante desse cinema que não oferece facilidades ou catarse. Ruiz é um inventor de enigmas. Gosta das narrativas barrocas, em espiral, dos desafios lógicos e constrói suas histórias com recursos de um surrealismo tardio.
Não é exatamente um diretor popular, mas o conjunto de sua obra é dos mais estimulantes. Produz em profusão e cada um dos seus filmes - e também das peças que escreveu para teatro - reflete uma indagação pessol, que é retrabalhada a cada vez. É um dos raros "autores" contemporâneos, na expressão clássica do termo. SERVIÇO - "Genealogias de um Crime" (Genéalogies dun Crime). França, 1997. Direção de Raoul Ruiz, com Catherine Deneuve e Michel Piccoli. Lançamento: FlashStar, Estação Botafogo.


