São Paulo, 08 (AE) - A boa notícia é que "Inimigo do Estado", que estréia amanhã (09), trata de um dos assuntos mais importantes que existem: a privacidade possível do cidadão moderno diante do avanço da tecnologia. A ruim é que aborda esse tema de maneira bem convencional e limitada, sem grandes riscos estéticos ou políticos. Mas o filme de Tony Scott (Amor à Queima-Roupa) tem ainda um ou outro trunfo a seu favor, localizado num elenco que tem o simpático Will Smith como protagonista, o carismático Gene Hackman como coadjuvante de luxo e Jon Voight como vilão.
A história começa com Robert Clayton Dean (Smith), um advogado brilhante que tem sua vida devassada quando entra involuntariamente em posse de um disquete comprometedor. Ele contém a gravação de um assassinato e pode comprometer gente nas altas esferas da política. Políticos interessados em aprovar um projeto de lei que limita as garantias de privacidade das pessoas. Tudo em nome da segurança nacional de um país que se tornou a única superpotência mundial e, por isso mesmo, sente-se o alvo mais visado.
Faz sentido. Mas vocês que entram no cinema para ver "Inimigo de Estado" deixem de fora toda a esperança de assistir a uma discussão aprofundada desse assunto ou de qualquer outro. Perseguições inevitáveis - Na verdade, Scott dirige apenas um bom thriller, um filme de ação. Que, aliás, tem cenas muito boas
mas acaba perdendo tempo demais em sequências frenéticas e redundantes, como as inevitáveis perseguições de carros. São os elementos mais batidos da história: a velocidade, certa pancadaria e ostentação tecnológica. Claro, vê-se o tempo todo a espionagem high tech possibilitada por computadores ligados a satélites, aparelhos de escuta à distância, microfones escondidos na sola do sapato, no relógio Rolex ou na caneta Montblanc do protagonista afluente.
Há, também, o charme e a energia de Drill, de longe o melhor personagem da história, vivido por Gene Hackman. Ele é o ex-agente que conhece o sistema "por dentro" e instalou-se num bunker à prova de escuta depois de convencer-se de que deveria lutar contra o monstro que havia ajudado a criar.
Um grande ator é trunfo para qualquer filme, mesmo mediano. Quando tudo parece ameaçado pela mesmice e pela falta de imaginação, ele entra em cena. O espectador torce para que permaneça o máximo de tempo possível na tela. E ainda que lute com um roteiro sem sal e diálogos de baixa caloria, consegue deixar a marca de sua passagem. Assim, "Inimigo do Estado" deve muito a Gene Hackman.
Mas nem por isso, Tony Scott consegue assinar um filme realmente bom. Fica-se pensando numa possível comparação com "A Conversação", um protótipo do gênero, curiosamente estrelado por Hackman. Neste, sobra o que falta a "Inimigo do Estado" - aquela complexidade que faz o espectador sentir-se participante de algo próximo ao real, sensível à verdadeira dimensão daquilo que é retratado, ou seja, o esmagador poderio do Estado em relação à fragilidade do indivíduo, tema tão antigo e atual quanto Hobbes.
Mas, e aí é que está o centro da questão, não fica muito bem discutir a fundo os limites da privacidade pessoal na pátria do individualismo. Esse é um dos mitos mais cultivados da modernidade, a de que a época dos totalitarismos foi definitivamente abolida e que, com o triunfo do livre mercado, a liberdade individual também está assegurada, pois uma coisa é decorrente da outra. Por isso se associou ideologicamente planificação estatal a limitação de liberdade. Quando essa limitação ressurge como raison détat, no interior mesmo do capitalismo, cria-se um impasse.
Essa dificuldade se encontra na origem mesma de "Inimigo do Estado", mas não é, compreensivelmente, explorada em todas as suas consequências. Afinal, não passa de entretenimento.

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