Um desfile exuberante e bem resolvido, mesmo resvalando num certo tecnicismo, confirmou o favoritismo e sagrou a Gaviões Londrinense como campeã do carnaval de rua de Londrina. O tetracampeonato, conquistado com exatos 196 pontos, foi anunciado após a apuração dos votos ocorrida anteontem à tarde, no Ginásio de Esportes Moringão. A agremiação foi a terceira escola de samba a desfilar no domingo e levou às pistas do Autódromo Internacional Ayrton Senna, novamente convertido em sambódromo, 600 integrantes, 12 alas e quatro carros alegóricos e fez o público ver, ouvir e cantar o enredo ‘‘A Fantástica Viagem do Gavião: Uma Volta ao Mundo em 50 minutos’’. Fez bonito, de fato, mas perdeu um ponto pelo fato de um integrante estar fazendo merchandising através de camisetas – de acordo com o regulamento, anúncios ou propagandas são permitidos apenas pelos empurradores de carros.
  Durante cinquenta minutos de desfile, a Gaviões levou à dita ‘‘passarela do samba’’ muito luxo (belas roupas do mestre-sala e porta-bandeira, respectivamente Vanderli, da escola carioca Salgueiro, e Ariane, por exemplo), causou impacto visual (as deslumbrantes e imensas figuras mitológicas do carro abre-alas) e uma bateria com breves paradas rítmicas e seus integrantes vestidos de guarda real britânica. A falta de zelo nas vestimentas de uma das alas finais – deu a impressão de ter sido composta às pressas – contrastou com a generosa sofisticação com o que até então havia se visto. Mas, enfim, o tetracampeonato é da Gaviões e isso ninguém tasca.
  A Garotos Unidos da Zona Sul bem que tentou quebrar a hegemonia do povo da Gaviões, porém ficou com o segundo lugar pelo terceiro ano seguido com 193,55 pontos – nesse ano as notas deveriam ser de 7 a 10, facultando ao jurados o direito de fragmentá-las. O enredo desse ano foi ‘‘Luz, eterna Luz’’ desenvolvido por 500 integrantes dividos em 13 alas e três carros alegóricos. À frente da comissão de frente, muito bonita por sinal, o dançarino Marquinhos Flap que apresentou a escola ao público com uma performance mesclando ginga, beleza e sensualidade. Boa apresentação fez também o casal de mestre-sala e porta-bandeira. No mais, a Garotos Unidos fez um desfile correto e coeso e, de quebra, prestou homenagem póstuma a Lunércia Marina Machado Nascimento, fundadora da escola falecida em outubro passado, e ao ritmista Jamaica (Juarez de Oliveira), morto há um mês.
  A Quilombo dos Palmares, uma das mais queridas e tradicionais escolas de Londrina, ficou em terceiro lugar com 192,8 pontos. O enredo: ‘‘Brasil, Terra Papagalis’’. Números: cerca de 400 integrantes, 13 alas e três carros alegóricos. Bateria: a melhor, pelo menos na opinião dos jurados que deram 19,8 pontos. Cá pra nós, merecidamente. Se falta luxo aqui ou ali, a garra, o sorriso franco de passistas e a contagiante bateria suprem, digamos, possíveis carências alegóricas da Quilombo.
  Inconsolável deve estar a comunidade da Unidos do Jardim do Sol, que no próximo ano passa a desfilar no Grupo B. O rebaixamento do grupo de elite foi inevitável: a escola obteve 175,83 pontos. À avenida compareceram 300 membros diluídos em dez alas e dois carros alegóricos num enredo com título até interessante: ‘‘A Justiça do Homem Falha, a de Deus Tarda Mas Não Falta’’. A performance, no entanto, deixou a desejar. Ou seja, alas espremidas, evolução comprometida. Nem mesmo a simpática baiana, cujo vestido foi confeccionado com pequenas bandeiras nacionais, salvou a pátria. Nem a torcida com o samba na ponta da língua comoveu o júri. Melhor sorte na próxima.

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